Resenhas

Crystal Castles – Amnesty (I)

Quarto disco do duo começa a evidenciar pouca inventividade em sua sonoridade

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Ano: 2016
Selo: Fiction Records
# Faixas: 11
Estilos: Witch House, Synthpunk, Experimental
Duração: 33:14
Nota: 3.0
Produção: Ethan Kath

Ser fã de Crystal Castles é acompanhar uma experiência traumática. Desde cedo, com o turbulento e denso primeiro disco, o duo se mostrou adepto de uma sonoridade que optou sempre por tirar o ouvinte de sua zona de conforto, usando-se de timbres estridentes e batidas eletrônicas pesadas. O processo de escutar uma obra completa do projeto causava traumas diferentes, fosse medo, desconforto, náuseas ou até mesmo um sentimento de estar sendo possuído (como bem representado no clipe do single Plague, do terceiro disco). De qualquer forma, eram traumas interessantíssimos e causavam uma relação de sadomasoquismo com seus entusiastas que, quanto mais abalados e chocados, mas pareciam gostar de suas hostis canções. Agora, com o novo disco, o primeiro sem a vocalista Alice Glass, as coisas parecem tomar dimensões diferentes.

Amnesty (I) é uma experiência nostálgica, ao mesmo tempo que frustrante. A nostalgia vem acompanhada de uma estética que o produtor Ethan Kath domina já há algum tempo, uma mistura de Witch House com muito Noise e Glitch. Fãs da trilogia inicial do grupo reconhecerão elementos típicos que os fizeram por tanto tempo se sentir nauseados e desorientados, apostando em pads sinistros e sintetizadores distorcidos até o talo. Os primeiros singles já apontavam nesta direção quando foram lançados em maio/junho. Frail aposta nos reverberados gritos de Edith Frances, na tentativa de lembrar o modo de cantar de Alice Glass. Já Concrete arrisca uma batida constante com várias camadas de vocais em tonalidades diferentes e barulhos altos, evocando aquela sensação maligna que permeou muitas composições do duo.

Entretanto, as coisas não parecem soar tão malvadas ou desconsertantes como antes. Na verdade, o disco todo parece caminhar para uma mesmice sem fim, apostando em estéticas mal aplicadas e desgatadas. Há faixas interessantes, mas o sentimento de hostilidade e imprevisibilidade, que antes era um fator interessantíssimo dentro da obra do duo, parece se esvair pelos buracos que o registro possui: as repetições desnecessárias de Fleece, estruturas mal acabadas com em Chloroform e caos mal administrados em Enth, entre outros elementos. E não é nem uma questão de se o projeto desandou depois que Alice saiu do grupo, pois, mesmo se ela ainda estivesse e as coisas soassem dessa forma, não teríamos a mesma profundidade de outros registros interessantes.

Amnesty (I) é um disco que denota certa conformidade com a estética produzida, buscando poucos elementos que realmente impulsionem uma maturidade plena para o duo. É um trabalho que certamente agradará a muitos fãs da banda, mesmo aqueles que se abalaram com a saída de Alice, afinal Ethan Kath ainda assina a produção. De qualquer forma, é preciso reconhecer que o grupo já esta inserido neste quadrado criativo há algum tempo e talvez seja criar traumas de diferentes naturezas.

(Amnesty (I) em uma faixa: Fleece)

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BOM PARA QUEM OUVE: Crim3s, Salem, HEALTH

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.