Resenhas

Cut Copy – Freeze, Melt

Conhecido pelos hits das pistas de dança, grupo australiano se coloca de forma mais etérea e suave em seu novo disco

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Ano: 2020
Selo: Cutters Records
# Faixas: 8
Estilos: Synthpop, New Wave Revival, Minimal
Duração: 40'
Produção: Haima Marriott e Dan Whitford

Para um bom frequentador das pistas de dança, o nome Cut Copy não é nenhuma incógnita. O grupo certamente imprimiu sua marca na música eletrônica do novo milênio, por meio de um casamento bastante autêntico entre melodias Indie e um romance profundo com as possibilidades digitais. Seus discos se tornaram referências de como fazer as pessoas dançarem na atualidade, principalmente trabalhos como In Ghost Colours (2008) e Zonoscope (2011).

Mas, para além disso, o grupo australiano parece colocar algo especial entre as batidas cativantes e os baixos profundos. Algo que certamente compõe uma aura diferenciada, quase hipnótica e introspectiva. Talvez esteja na escolha dos timbres, ou nas temáticas das letras: o fato é que dançar ouvindo Cut Copy não parece um prazer efêmero – injeta uma energia que persiste em nossa mente por muito tempo, mesmo depois de encerrada a audição. Agora, três anos depois de seu último disco, Haiku From Zero (2017), o grupo deixa essas minúcias misteriosas mais evidentes, potencializando um aspecto introspectivo.

Esta parece ser a premissa de Freeze, Melt. Apesar de conservar batidas dançantes, o grupo soa mais interessado em explorar os estados de transe/hipnose do que em discos passados, nos quais os momentos de introspecção se expressam de forma mais tímida. Os sintetizadores e sequenciadores analógicos ganham o papel principal da obra e sua timbragem é feita de uma maneira tão precisa que deixa nítido um carinho especial do grupo pela nostalgia, principalmente a dos anos 1980. Não apenas desta década, mas o grupo também colhe referências diretas da seminal obra francesa Discovery (2001), de Daft Punk.

O disco pode ser encarado como um episódio mais tranquilo e contemplativo na obra de Cut Copy e, mesmo focado em texturas suaves e quase lisérgicas, o grupo ainda é capaz de nos proporcionar uma experiência altamente dançante e cativante – uma espécie de dança meditativa. Seria muito apressado dizer que Freeze, Melt marca uma mudança de sonoridade decisiva na banda. O que parece mais propício afirmar é que o grupo optou por maximizar aspectos de outros discos. A mesma aura misteriosa está aqui, porém, desta vez, sem se espremer entre o Pop divertido do grupo.

O fato de Cut Copy se voltar um pouco mais para a Ambient Music e a psicodelia não significa que o disco é linear em seus humores. Muito pelo contrário: toda a aura construída aqui se expressa de diferentes formas, comprovando sua complexidade e versatilidade. No melhor estilo New Wave, a faixa de abertura “Cold Water” nos traz diretamente para um filme em película dos anos 1980 com direito a vocais reverberados de um galpão industrial de algum ótimo filme de Joel Schumacher. O poderoso single “Love Is All We Share” traça caminho diferente, se apoiando no movimento ondulatório dos sintetizadores para conduzir o ouvinte por um fluxo contínuo e relaxante.

Em “Stop, Horizon”, o protagonismo dos sequenciadores orquestra notas pontuais para formar uma imagem de fábrica: extremamente coordenada em seus processos. “A Perfect Day” deixa um pouco mais evidente as batidas dançantes para os fãs nostálgicos. E por fim, “In Transit” é a personificação musical da capa do disco, simulando as ondas ensolaradas de um mar distante e composto de muitos pads nostálgicos.

O delicado trabalho de Cut Copy na construção de cada microcosmo é sentido com tenacidade. Fica evidente o intuito de ressignificar estéticas passadas, sem desrespeitar, no entanto, o afeto e a tradição tão querida pelos fãs. Freeze, Melt é o disco de relaxamento que precisávamos e nem sequer sabíamos.

(Freeze, Melt em uma faixa: “Love Is All We Share”)

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ARTISTA: Cut Copy

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.