Resenhas

Damien Jurado – Brothers And Sisters Of The Eternal Son

Lembrando a repercussão do primeiro disco de Bon Iver, músico acerta em seu novo disco

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Ano: 2014
Selo: Secretly Canadian
# Faixas: 10
Estilos: Indie, Folk
Duração: 34:46
Nota: 4.5
Produção: Richar Swift

Em algum lugar entre as atmosferas amplas e secas de Daniel Lanois, a tristeza na cidade pela partida de um circo itinerante e o roteiro de filmes como O Inverno da Alma, existe uma América que a maioria do mundo não conhece. Ela está lá, se estende até onde vai a vista, em longas pradarias, estradas desérticas e dias chuvosos, nos quais uma multidão vaga em silêncio, tentando entender como pode viver tão perto de cidades como Los Angeles ou Nova York, jurar a bandeira, chorar pelos mortos no Iraque e, ainda assim, não se sentir parte da pujança de dias contados dos Estados Unidos. É a mesma América da capa de Nebraska, disco solo de Bruce Springsteen, em preto e branco, cheia de espaços vazios que ninguém quer preencher e personagens estranhos que parecem fantasmas cinzentos.

Damien Jurado é um cronista desse território que pode ser entendido apenas na alma ou, materializado, presente nas distâncias e nas vastidões. Este sentimento é palpável em sua obra, um Rock que é muito Folk, cheio de referências estéticas a gente que entende de rincões americanos mitológicos como os canadenses (que são mais fluentes que os yankees nesse escrutínio do inconsciente da tal hinterland) Neil Young, Bruce Cockburn e os 4/5 da Band, verdadeiras autoridades no assunto. Damien é nativo de Seattle, quase no Canadá, o que só confirma a impressão. Mas há espaço para gente do Velho Mundo em sua paleta sonora, sobretudo para folksters britânicos tristonhos, principalmente Nick Drake e Bert Jansch. Brothers And Sisters Of The Eternal Son é seu décimo-primeiro disco, o segundo a contar com a produção de Richard Swift, um aspirante ao domínio de pequenas forças eólicas em termos musicais, capaz de encher de vento o espaço de um estúdio, dando a impressão que tudo está meio saturado, meio fora de foco. A impressão se transforma em certeza ao longo das dez canções.

São pequenas polaroides em preto e branco, instantâneos de um estado de espírito que oscila entre a conformidade e a esperança sem sentido. Há momentos de beleza intensa por todo o disco, mas a abertura em Cinemascope de Magic Number, não só é um aceno a At The Chime Of City Clock, do segundo disco de Nick Drake, Bryter Later, mas também um “olá” a um parentesco insuspeito com trilhas de filmes de Blaxploitation dos anos 70. Não há groove, não há guitarras em wah wah, tudo é meio fragmentado, mas está lá. A romaria de Jurado segue com momentos de céu azul em Silver Timothy, totalmente anos 70, desde que fosse feita por alguém naquela época, desejando soar como em 2014. Também são solares – mas com temperaturas beirando zero absoluto – Silver Joy, Silver Donna e Silver Katharine, cada uma cheia de vocais lindos e instrumental plácido, no qual o violão de Jurado é a estrela, mas de uma maneira que quase se omite em meio ao todo. De vez em quando, um efeito de teclado, um cello lamurioso, algo vem quebrar a monotonia que nunca se estabelece.

A beleza de Brothers And Sisters Of The Eternal Son é enorme. Talvez seja a mesma que For Emma Forever Ago, disco de estreia de Bon Iver (2008) despertou nos ouvidos do mundo. A diferença está no aspecto essencialmente cotidiano da música deste disco. Enquanto For Emma parecia vindo de uma dimensão paralela, Brothers And Sisters traduz a beleza da simplicidade de gente indo e vindo, aparentemente sem chegar a lugar nenhum. A edição de luxo do álbum traz um CD-bônus chamado Sister, no qual Damien relê oito das dez faixas, acompanhado por um coral feminino, Sister Of The Eternal Son, ampliando e realçando ainda mais a excelência das canções. Impressionante.

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ARTISTA: Damien Jurado
MARCADORES: Folk, Indie, Ouça

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.