Resenhas

Damon Albarn – Everyday Robots

Primeiro disco solo do músico é melancólico e traz a sua verdadeira faceta pós-Blur

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Ano: 2014
Selo: Parlophone, Warner Bros, XL
# Faixas: 12
Estilos: Indie Eletrônico, Indie Rock
Duração: 46:32
Nota: 4.0
Produção: Damon Albarn

Everyday Robots representa muito bem quem é Damon Albarn verdadeiramente: um sujeito meio ranzinza e melancólico, mas genial e brilhante em todos os projetos que tocou. O aspecto mais triste de seu primeiro trabalho solo talvez seja a resposta para aqueles que sempre se perguntam: Quando Blur vai voltar mesmo? Turnês de reencontro não são o bastante para os fãs que já se vêem há mais de onze anos sem um novo lançamento dos britânicos. Por que apesar da já declarada composição de faixas suficientes para um novo disco ele não tem chances de sair tão cedo? Porque Albarn envelheceu, se interessou por outras coisas e um dos pais do Britpop cansou de seu estigma.

O disco representa bastante a sua fase pós-Blur, apesar da semelhança com Think Tank na já citada melancolia e em sua levada cadenciada. Se aproxima também do penúltimo disco de Gorillaz, Plastic Beach, quando abraça esta atmosfera igualmente. No entanto, apesar de seu formato minimalista, eletrônico e com influências na percussão das batidas de Hip Hop, Everyday Robots acaba sendo mais do que somente este retrato do artista. É também a sua percepção do mundo em que ele vive. Viciado em tecnologia – o último disco do Gorillaz foi feito com iPads, enquanto o clipe de um dos singles deste disco, Heavy Seas of Love, também foi gravado com o tablet da Apple – o músico aborda esta modernidade na faixa título, “We are everyday robots on our phones/In the process of getting home/Looking like standing stones/Out there on our own”. Semelhanças com o cotidiano dos ouvintes e do músico não param por ai.

Na ótima Lonely Press Play, em meio a batidas quebradas, um piano conduzindo com uma linda guitarra ao fundo nos faz emergir da solidão que somente uma música e um bom par de ouvidos parece curar. Sua voz, calma e humana, mostrando que, por trás dos desenhos de seu projeto multidisciplinar Gorillaz ou mesmo sua fusão de Afrobeat e ritmos eletrônicos de Rocket Juice & the Moon, existe um homem solitário e moderno. Sua levada em pseudo-baladas acaba o acompanhando ao longo de toda a obra, como a deliciosa, mas desta vez animada, Mr. Tembo, feita para um elefante africano em meio às suas excurssões com Africa Express, denotando seu lado jovial, assim como a curtinha Parkeet.

No entanto, ele não quer chegar no uptempo, se concentrando nas poucas batidas por minuto e no piano, como se Nicolas Jaar tentasse ser menos experimental e tivesse o auxílio de uma voz conhecida. The Selfish Giant brinca com o lado eletrônico em uma produção precisa e triste: “I had a dream that you were leaving/It’s hard to be a lover when TV is on and nothing is in your eyes”. A figura do músico olhando para baixo que aparece na capa do disco parece acompanhá-lo por toda obra. Em alguns momentos, ele parece um pouco paralisado com esta direção, tentando não sair dela de forma alguma para se atentar a sua própria tristeza.

Tal escolha o leva para dois momentos igualmente brilhantes: You & Me e Heavy Seas of Love. A primeira guarda uma surpresa para o final e a única pista que o ouvinte recebe é um eco de seu sintetizador, que aos poucos vai perdendo o tom, como se quisesse terminar uma transmissão de rádio, no entanto, lá pela sua metade, o músico traz as origens étnicas de projetos anteriores para surgir em uma batida maravilhosa feita no xilofone e guitarra, até que o “drop” aparece e Albarn emociona até o mais o duro de seus fãs. Tal momento é tão viciante que você provavelmente irá retornar a faixa sempre esperando quando a mudança de tom o leva para um lugar bastante tranquilo. A segunda, parceria com Brian Eno, encerra o disco de forma exemplar e o auxílio de outra voz traz o ar de novidade que poderia muito bem ter sido incorporado ao longo do disco.

A melancolia pode ser muito necessária para que em alguns momentos possamos ver o que existe de bom ao nosso redor. Este lado sentimental do músico, abordado de outras formas antes, ganha o acréscimo de um formato eletrônico que quebra o seu ritmo com um bumbo sempre presente e ares de bateria de Hip Hop. Tal mistura se mostra interessante, mas não espere que Everyday Robots vá te trazer muita claridade nestes dias frios que surgem no horizonte. Na verdade, a intenção do álbum nunca foi essa, mas de mostrar Damon em seu estado puro – e que belo resultado que temos aqui. O final de Hollow Ponds, por exemplo, com seu sopro de trompete lento e choroso, ou a acústica The History of a Cheating Heart nos remetem a outros estados de espírito que muitas vezes preferimos esquecer. O conselho aqui é se entregar à introspecção e, sim, apertar o play quando se sentir solitário. Albarn estará lá como pelo menos uma voz de compreensão.

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BOM PARA QUEM OUVE: Nicolas Jaar, Blur, Gorillaz
ARTISTA: Damon Albarn

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.