Resenhas

Danny Brown – Atrocity Exhibition

Quarto trabalho do rapper de Detroit é obrigatório em 2016 e acerta ao fugir de elementos esperados

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Ano: 2016
Selo: Warp
# Faixas: 15
Estilos: Hip Hop Alternativo
Duração: 46:38
Nota: 4.0
Produção: Paul White

Danny Brown é o tipo de rapper idiossincrático – seleto grupo no qual timbre e forma de rimar são os elementos de diferenciação em relação aos demais. Não existem muitos artistas que se enquadram em seu próprio “gênero” musical, sendo o MC de Detroit um desses casos, como Kendrick Lamar ou Tyler the Creator, por exemplo. Se os BPMs elevados de suas rimas o fizeram se aproximar da música Eletrônica através de diversas parcerias com membros de seu selo, Warp, tais como Rustie, poderíamos esperar que isso se consumasse no seu quarto trabalho, certo? Doce engano, Atrocity Exhibition é imprevisível.

Seja na escolha por instrumentações ao vivo e elementos orgânicos na construção de batidas, deixando o trabalho com uma cara mais antiga, ou em atos que trazem Brown mais contido e devagar, o disco pode ser considerado um novo capítulo em sua carreira. Temos construções interessantes, como Tell Me What I Don’t Know, história de suspense que poderia sido trilha para a série Luke Cage, ou a jazzística Rolling Stone, com Petite Noir, na qual as escolhas estéticas de Danny são claras – fugir de expectativas gerais.

Parcerias, escolhas comuns em XXX e Old, aparecem pontualmente aqui, mas podem ser consideradas louváveis – Really Doe com Kendrick Lamar, Ab-Soul e Earl Sweatshirt é o tipo de música que vale um disco inteiro e nos faz imaginar uma reunião com Badbadnotgood ao pedir uma banda de apoio ao vivo. From The Ground, com Kelela, tem toques futuristas e traz uma produção sem correlações atuais, podendo ser considerada vanguardista. Temos também os toques de humor do músico em Ain’t it Funny, com sample de balada Disco dos anos 1970, e Dance in the Water, com samples de música africana – nos dois casos, a rapidez com que Brown propaga suas rimas não surpreende, mas diverte.

No entanto, os grandes momentos ficam com a primeira metade do disco que trazem mais elementos de mistério e escuridão do que estamos acostumados. Lost tem uma batida que poderia ter sido criada por Racionais MCs há 20 anos, mas que ganha outros contornos devido ao timbre agudo e ríspido de Danny. Com toques de filme alternativo, distantes do imediatismo de suas obras anteriores, Atrocity Exhibition é o tipo de obra necessária para fugir de antigos estigmas e se reinventar.

Brown pode não ser considerado o rapper mais fácil de apaixonar à primeira vista: seu jeito frenético, estridente com versos na cabeça da batida tendem a confundir o ouvinte. O estranhamento é compreensível, White Lies, por exemplo, pode chocar a primeira audição de alguém desacostumado com suas obras – no entanto, ao se aproximar de temas mais crus e orgânicos, Danny parece trazer pessoas que muitas vezes se afastavam de seus trabalhos. Não espere que sua idiossincrasia tenha desaparecido, mas que, pela primeira vez, o rapper tenha uma produção que valorize de verdade suas principais qualidades e torne-o acessível. Atrocity Exhibition surpreende justamente por quebrar nossas expectativas e criar novos rumos em sua discografia, sendo um disco necessário e inventivo de Hip Hop em 2016.

(Atrocity Exhibition em uma música: From The Ground)

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.