Poucos nomes da música conseguem manter o mistério e o aspecto reservado como Nicolas Jaar. Dono de diversos projetos paralelos que exploram ritmos, formatos ou mesmo sobras de gravações, Jaar, no DARKSIDE , realiza seu movimento mais “pop”. Quatro anos após Spiral, o duo formado com o guitarrista Dave Harrington — e que agora pode ser chamado de trio com a entrada do baterista Tlacel Esparza — parece atingir seu momento mais inspirado.
Se no primeiro disco, Psychic (2014), o acréscimo de um instrumento ao “live show” trouxe a espacialidade e um ponto de contato “menos” experimental ao som, agora, Esparza vem com o elemento orgânico necessário para transformar o DARKSIDE em grupo. A nova formação funciona e muito — Nothing não é apenas o melhor disco do DARKSIDE, mas o melhor trabalho de Jaar desde Sirens (2016).
Vale destacar que, em uma fase mais experimental e artística de sua carreira, Nicolas produziu obras incríveis. Ainda assim, Nothing resgata o vigor presente em Sirens, mas que acabou se perdendo nos lançamentos mais recentes. O álbum transborda sentimentos, afeto e uma sensibilidade rara em sua discografia atual — como se fosse um filho perdido entre tantos outros trabalhos. Gravado em sessões improvisadas entre Los Angeles, Paris e o sul da França, o repertório tem uma forma livre e cria pequenas “subnarrativas” dentro de cada faixa.
“S.N.C”, por exemplo, se transmuta ao longo de seus quase sei minutos em medleys de samples de soul, guitarras distorcidas e uma bateria intermitente — o trio se potencializa em uma música que soa muito mais grandiosa do que o produto de apenas três pessoas. A sensação se repete ao longo das nove faixas, cada uma explorando temas, momentos e texturas distintas, como no dub de “Are You Tired?(Keep on Singing)” que em seus recortes de cânticos medievais a uma balada country. Em uma perspectiva de um mundo inundado de playlists, o repertório desenvolve pequenos recortes psicodélicos.
“Graucha Max” é um hardcore desacelerado que nos lembra momentos mais viscerais tanto do DARKSIDE quanto de Jaar — a repetição de “a planned descent” evidencia seu característico lado político, tão importante em sua música. A decadência planejada. A melancolia, também sempre existente em sua discografia, nunca nos deixou esquecer que “el no está en todo”. É o eterno retorno da frustração por um mundo que escolhe lados errados, até que a faixa se entrega a sabores de ritmos latinos — um reggaeton pós-apocalíptico que ressoa a esperança na descentralização da visão ocidental do mundo.
“American References” é uma ode à espacialidade e um ruído do disco de estreia de Jaar: um mantra cantado em espanhol —”se não funciona, não me diga que funciona” descreve um personagem apático, conhecido como “señor nada”, uma figura desiludida e sem propósito. A repetição contínua, porém com crescimento instrumental, traz uma espécie de espiral de desilusão que mantém o ouvinte vivo no meio do caos moderno. “Hell Suite, PT.1” e “Hell Suite, PT.2” são os atos de pós-morte em um ambiente visual que poderia estar dentro de um episódio de Twin Peaks.
Nothing é o primeiro trabalho do DARKSIDE que parece mais que um simples experimento de live music entre Jaar e Harrington, agora como banda e com um tremendo baterista (Tlacel Esparza). É uma demonstração de como o trio se sente à vontade no estúdio — e, sobretudo, uma viagem necessária em tempos de melancolia e incerteza. Sentimentos densos se misturam, aqui, à esperança. Inclusive, o “nada” no título parece, de uma só vez, abarcar niilismo e paz de espírito.
(Nothing em uma faixa: “S.N.C”)
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