É com uma produção pop maximalista que David Byrne chega com Who Is The Sky?, o oitavo álbum de sua discografia solo. Continuando com suas observações perspicazes e bem-humoradas sobre a vida cotidiana, agora acompanhado da nova-iorquina Ghost Train Orchestra, o músico americano acrescenta mais um capítulo à sua emblemática carreira.
Who Is The Sky? vem no encalço do excelente American Utopia – e é como a sua continuação espiritual. No entanto, agora o tom político parece estar um pouco mais afastado. Não há nada da vida sob o escrutínio da guerra, ou, digamos, sobre o governo autoritário que os EUA viveram recentemente.
Ao invés disso, Byrne circunscreve a vida sob uma lente muito mais microscópica. Se ele comenta sobre o proverbial “estágio final do capitalismo” que vivemos, sobre como esse sistema vai se infiltrando aos poucos em nossas vidas, isso se dá apenas através de sintomas bem-humorados – seja pelo uso obsessivo e panóptico do celular, pela importância que atribuímos ao skincare, ou pela relação de amor que desenvolvemos com nossos apartamentos.
Isso tudo parece bem exemplificado pelo título do trabalho: o nome Who Is The Sky? vem de uma transcrição errada de uma inteligência artificial para a frase “who is this guy?”. Ao invés de comentar sobre essa sinuca de bico desse assunto insuportável que é a IA, Byrne resolve olhar para o aspecto poético e absurdo dessa interação.
Em termos de produção, este é um dos álbuns mais açucarados de sua carreira, um balde cheio até a boca de timbres coloridos, abrasivos e comprimidos. As escolhas do produtor Kid Harpoon – responsável por uma parcela da linha de frente do pop mainstream como Harry Styles e Miley Cyrus – deixam tudo ainda mais saturado de sacarose. A faixa “What’s the Reason for It“, com a participação de Hayley Williams, por exemplo, desloca um pouco o contexto que estamos acostumados a ouvir com Byrne, e indica uma escolha que, embora não pareça fazer muito sentido curatorial, provavelmente passou pelo aval da equipe de marketing. Finalmente, a escolha do estilista Tom van der Borght para fazer a indumentária que Byrne veste na capa do álbum – artista que certa vez declarou: “minhas criações só terminam quando não consigo adicionar mais nada” – sublinha ainda mais esse desejo de excessos.
O resultado de Who Is The Sky? não pode ser lido isolado do contexto em que Byrne vive no momento. Em alta desde seu acertadíssimo show American Utopia, agora lança músicas inéditas sob o mesmo signo de seus comentários bem-humorados sobre o absurdo da vida, na tentativa de expandir esse imaginário. Com isso, vem uma tentativa de resgatar o seu legado com os Talking Heads, procurar novas parcerias, ceder um pouco às tentações do mercado, organizar tudo isso dentro de uma perspectiva outsider que sempre lhe coube. O mais importante é que, em seus melhores momentos, Who Is the Sky? resgata a linguagem mágica absurda de Byrne, pintando mais um retrato único da vida como ela é.
(Who Is The Sky? em uma faixa: “She Explains Things to Me”)
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