Resenhas

Deadmau5 – while(1<2)

Disco duplo do produtor canadense evidencia novos rumos de sua carreira em uma obra longa e plural

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Ano: 2014
Selo: Mau5trap, Astralwerks, Capitol Records
# Faixas: 25
Estilos: Eletrônica, Deep House, House
Duração: 130:39
Nota: 3.0
Produção: Joel Zimmerman

Qual a melhor maneira de mostrar a sua revolta com um sistema? A rebeldia parece ser a solução para o produtor canadense Deadmau5 e o seu sétimo disco de estúdio, while(1<2). O álbum duplo é uma espécie de apanhado geral dos últimos anos da carreira do DJ, que já se apresentou no Brasil no Lollapalooza em 2013 com demos, remixes e trabalhos ainda não finalizados, grande parte deles presentes em sua conta do Soundcloud mas que foram ou apagados com o tempo ou pelo próprio sistema de compartilhamento musical - este que acabou revoltando o artista. No entanto, tantas faixas em mais de duas horas de música fazem este lançamento se tornar imperdível?

Chega a ser dífcil encontrar coesão no disco, dada que essa não é naturalmente a proposta de Deadmau5, mas podemos encontrar alguns padrões ao longo do trabalho que tornam mais fácil a sua avaliação e demonstram um produtor seguro e com diversas influências. Temos aqui, por exemplo, a sua conhecida House Progresiva em faixas que evidenciam sua capacidade de tornar qualquer aparelho sonoro potencialmente festivo - seja seu headphone ou as caixas de som de um clube. Avaritia, primeiro single do álbum, e Phantoms Can’t Hang crescem nos mínimos detalhes para depois explodirem de forma colérica, algo que já estamos acostumados a ver no músico e que apesar de sua qualidade podem ser considerados comuns na Música Eletrônica atual.

Remixes de de Nine Inch Nails e curiosamente de David Byrne & St.Vincent expandem o seu leque de criações. O primeiro, da faixa, Survivalism combina bastante com a levada de algumas músicas presentes no disco 2, como a industrial Errors in My Bread, enquanto o remix para Ice Age, deixando-a mais minimalista e serena, acaba mostrando um lado do produtor que pode ser o grande destaque de todo disco. Enquanto o nome deste trabalho está relacionado a um comando de programação que deixa um argumento (sample, música, batida) em loop, um símbolo da EDM e que pode ser visto em canções como Infra Super Turbo Pig Car ou My Pet Coelacanth, é nos momentos em que vemos Deadmau5 ao piano, criando trilhas imaginárias e muito mais contidas que seus sucesso, que podemos entender um pouco de sua nova fase.

Acedia, Invidia, Somewhere Up Here, Silent Picture e Superbia parecem rascunhos de outras inspirações que acometem o músico agora. Levadas no piano na maioria dos casos ou em rudimentos bem pequenos como bits e clicks do computador mostram que tais faixas tem inspiração em trilhas cinematográficas como as de Trent Reznor, evolução natural para um produtor de música Eletrônica que ve sua obra ganhar mais efeito quando tem uma trilha sonora por trás. Mercedes é muito boa apesar de sua clara semelhança com o álbum do duo Daft Punk para o filme Tron: O Legado. Todas estas músicas são exemplos para o que Deadmau5 quer seguir daqui pra frente, tomando grande parte dos discos que compõe while (1<2).

Recentemente, o canadense declarou sua raiva em relação aos festivais de música em geral que, segundo o seu ponto de vista, vendem-se e se promovem como experiências musicais às custas das bandas que compõe o seu cartaz, e desta forma quem sai valorizado ao fim do evento é quem o promove e não quem performa nela. Como combater isso? Criando sua própria experîência musical com roteristas de Hollywood e produtores de videogame, algo que a turnê particular em breve de Deadmau5 deve trazer. No entanto, se isso é o futuro, a rebeldia de lançar tudo o que Soundcloud havia tirado do ar acabou trazendo diversas faixas que parecem incompletas ou rascunhos na maioria das vezes. A partir desta análise, vemos boas faixas e uma mudança de direcionamento para a criação de trilhas, provavelmente para os concertos que o músico que conduzir a sua maneira. Se não nos vemos muito empolgados com o que escutamos aqui, muito pelo formato proposto e sem muita coesão, podemos perceber novos rumos a partir de demos, remixes e ideías que devem ser melhor explorados para que mostrem o seu verdadeiro valor, pois, por enquanto, são apenas conceitos desorganizados em uma grande quantidade de faixas desconexas, mas com potencial.

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ARTISTA: Deadmau5

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.