Resenhas

Deluxe – Stachelight

Novo álbum do grupo francês é uma joia de Pop inteligente e solar

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Ano: 2016
Selo: Chinese Man
# Faixas: 13
Estilos: Pop Alternativo, Soul Pop, Dance Alternativo
Duração: 50:34
Nota: 4.0
Produção: Nicolas Bertocchi

O melhor, mais inteligente, interessante e bem tocado Pop feito no planeta atualmente vem da França. Esta revelação não surpreenderá os mais atentos aos trabalhos lançados pelo pessoal de lá nos últimos tempos, bandas e artistas como Jamaica, L’Imperatrice e ZAZ, sem falar nos medalhões Air, Phoenix e Daft Punk, que iniciaram essa renascença popística francesa ainda no finzinho do século passado. O sexteto Deluxe é mais um nessa sensacional onda. Os caras são do sul do país, mais precisamente da região de Marselha, um lugar totalmente diferente da imagem que temos da França, na qual Paris desfila soberana. Próxima do Mediterrâneo, da África e da fronteira com a Itália, cheia de imigrantes ilegais, Marselha é multirracial e interessantíssima. Não espanta que Deluxe seja todo afeito às formas negras de Pop moderno, especialmente Hip Hop e Funk, com um toque de Dance e a já característica maestria francesa em recriar – e modificar – sonoridades americanas da virada dos anos 1970/80, tornando-as levemente estranhas, porém familiares. É tudo muito sutil por esses lados.

Formado por sujeitos com nomes como Kaya, Kilo, Pietre, Soubri, Pépé, além da sensacional cantora Liliboy, Deluxe não tem medo de fazer uma música alegre, cheia de referências e sem ser caricata, na qual a leveza tem papel muito importante. Suas levadas são dançantes, há algo de folclórico nas estruturas melódicas, bem como uma modernidade cosmopolita que dá as cartas e norteia tudo. São criaturas da cidade, de onde vieram, mas plugados em todo tipo de conectividade possível. Stachelight é seu segundo álbum de inéditas e leva para o alto esta ideia de diversidade/tradição, que pode soar como clichê modernoso, mas que é o segredo (exposto) da graça da banda, algo que, poderíamos dizer com relativa certeza, é uma característica comum a essa geração de bons artistas franceses. Eles têm um pé no presente/futuro, outro no passado recente, tudo ao mesmo tempo, indissociável e sem planejamento prévio. Ouçamos, por exemplo, Shoes, a faixa de abertura: baixo, bateria e guitarra pontuam a levada, a voz de Liliboy faz graça e teclados dão o molho. Parece simples e inevitável, né?

Logo em seguida vem a simpática Oh, Oh, com percussão e guitarrinha Funk marcando o andamento, baixo engordado naturalmente e o registro vocal que oscila entre o desafinado e o gracioso, tudo em midtempo, cheio de graça, pra desaguar num refrão com metais e vocalises. Baby That’s You é brejeira, moderninha, algo tristonha, letra em inglês e francês, sutileza e sentimento. Tum Rakat introduz violões acústicos, que vão levar a um passeio pelos arredores da cidade, olhando o casario sob o céu do fim da tarde, desembocando num adorável andamento cadenciado, esbanjando metais e percussão. Estes mesmos metais surgem sintetizados logo na abertura da faixa seguinte, Bonhomme, na qual a voz de Lilliboy atinge o mais próximo que consegue de uma cantora negra, não por alguma necessidade de elevar o tom num registro mais alto, mas por exibir ginga e sentimento. Wait A Minute oscila levadas rápidas, lentas, tangenciando gêneros como Reggae e Ska bem de leve, com charme e propriedade, com direito a um solo caprichado de guitarra em algum ponto da sua segunda metade.

Tall Ground pega pesado e adentra com firmeza o terreno do que se chama hoje de Vintage Soul, mas com vocais canto-falados, instrumental elíptico e scratches, com uma visão agringalhada, porém maravilhosa, da música negra americana mais clássica. O outro lado desta moeda vem com o híbrido Rap/Soul/Jazz que chega em A L’heure Où, com vocais dos companheiros de Marselha, IAM, fornecendo relevância das ruas para esta crônica amorosa, moderna, urbana e rápida. Right There tem violões inteligentes, voz ensolarada, clima de domingo de manhã, com crianças brincando num parque, nada mais que gente boa convivendo. Ear retoma o canto-falado da cidade anoitecendo, com samples e instrumentos acústicos brincando de esconde-esconde com o ouvinte. Seize Your Day surge na arremetida final do álbum, evocando a visão Funk bondosa e Pop que gente como Phoenix decalcou com eficiência há algum tempo. Uma singela, porém dispensável, versão acústica de Oh, Oh surge antes da canção de encerramento, a belíssima e grandiosa My World, que pega emprestado elementos de balada Funk Pop da virada dos anos 1970/80 e os traz para hoje, com senso de oportunidade e nunca deixar a operação cair para o terreno fácil e movediço da nostalgia. Aliás, nostalgia é o que não existe por aqui.

Após algum tempo ouvindo música Pop, a gente percebe quando um artista ou banda ensaia um passo que o levará para um nível superior em termos de relevância. É o caso de Deluxe neste segundo trabalho. Ambição na medida, conhecimento de causa, boas soluções, essa galera vai longe, se tudo der certo.

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BOM PARA QUEM OUVE: Jamaica, Phoenix, Air
ARTISTA: Deluxe

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.