Resenhas

Destroyer – Poison Season

Dan Bejar continua sua carreira metamorfósica com um disco diferente de seu grande sucesso “Kaputt”

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Ano: 2015
Selo: Dead Oceans
# Faixas: 13
Estilos: Indie Rock, Art Rock, Singer-Songwriter
Duração: 53:00
Nota: 4.0
Produção: Dan Bejar
SoundCloud: /tracks/217756317

Existe uma dessas parábolas de boteco (ou de Facebook, dependendo do seu ponto de vista) em que é narrada a história de alguns cegos que encontraram um elefante e começaram a apalpá-lo para entender o que era aquilo. O cego que tocou a perna do elefante o descreveu como uma coluna peluda, aquele que acariciou o rabo o descreveu como uma corda, o que acariciou o chifre dizia que ele era uma espécie de lança e por aí vai. Tudo isso para mostrar que, muitas vezes, apesar das impressões de cada um parecerem muito diferentes, todos estão em contato com uma mesma coisa.

Poison Season, décimo álbum de Destroyer, pode causar o mesmo tipo de discussão em diferentes ouvintes, de diferentes épocas. Dan Bejar (The New Pornographers, Swan Lakes), canadense, mente e voz por trás do projeto, lançou o primeiro trabalho sob este nome em 1996 e, desde então, tem conquistado admiradores experimentando diferentes abordagens em cada disco, o que faz com que o inesperado seja sua principal identidade. Nessa brincadeira, já foi encaixado na caixinha do Indie Rock, do voz e violão, do Art-Rock e tendo como seus dois últimos trabalhos, um leve EP lançado em 2013 com versões de faixas do músico espanhol Antonio Luque e Kaputt, de 2011, o disco que mudaria muita coisa em sua carreira.

Nessa jornada de experimentação pessoal na qual Dan Bejar decidiu embarcar, três características sempre uniram toda sua obra, passando uma ideia de identidade mais bem definida. A primeira é sua voz anasalada, esquisita e que parece muitas vezes estar recitando poesias, não cantando. A segunda são as estruturas nada convencionais de suas letras, em partes belíssimas, em outras indecifráveis e sempre flertando com a poesia. Por último, uma inspiração por sons do passado, de forma sempre muito natural, refletindo os gostos pessoais de Bejar, mas imprimindo em sua obra uma sensação de não pertencimento quando analisadas no contexto das produções contemporâneas.

No entanto, com Kaputt, por acidente ou inconsciente coletivo, as referências aproveitadas por ele, resultando num estilo retrô, sensual e sofisticado, estavam em perfeita sintonia com a produção daquele momento. Somando essa adequação do trabalho ao contexto musical da época à qualidade de Dan como letrista e à sua capacidade – mesmo que nem sempre utilizada – de criar boas canções Pop, o resultado foi um dos discos mais elogiados e celebrados desta década, alçando o músico a um patamar que, segundo ele, jamais poderia ter sido planejado ou imaginado.

Por isso, com a chegada de Poison Season, diversos grupos recebem o disco com diferentes expectativas: Os fãs mais antigos esperando um novo caminho a ser seguido, os mais recentes esperando um álbum acessível como Kaputt, outros aguardando a inventividade de sempre, mas impactada pela nova repercussão do projeto, isso sem contar os novos ouvintes que podem ser apresentados ao seu trabalho com este décimo álbum. Independente da percepção que cada um destes pode ter do projeto, todos eles falam do mesmo artista e todos estarão corretos de esperarem o que estão esperando.

Acertaram os que acompanham sua trajetória há quase duas décadas, pois uma nova face de Destroyer está presente. Uma que mescla faixas mais pra baixo, com outras extremamente para cima, característica bem ilustrada pelas duas primeiras – de três totais – aparições de Times Square. A primeira, que abre o trabalho, acompanhada de uma orquestra, funciona como uma trilha sonora profunda para o clímax de uma peça de teatro. Já a segunda, em seu formato mais acessível, é uma das melhores faixas do disco, divertida, leve, com o violão bem presente e o saxofone roubando a cena.

Acertaram também os que esperavam mudanças, mas impactadas pelo sucesso de Kaputt. De uma forma ou de outra, Dan Bejar rodou o mundo com sua banda por causa desse disco, o que lhe trouxe uma nova percepção de sua própria música e da dinâmica com sua banda. Dream Lover, um dos prováveis e raros “hits” do disco, é um Rock “Springsteeniano” catártico que foi resultado de uma gravação ao vivo com seus companheiros, sem muito roteiro pré-definido ou uma ideia concreta de como seria a faixa.

A conclusão é que é impossível analisar um disco de Destroyer como um objeto isolado, sem contextualizá-lo dentro de sua metamorfósica carreira. Poison Season tem seus momentos reflexivos mesclados com outros de pura animação, letras diretas ao lado de viagens líricas e melodias de estrutura bem definida intercaladas com outras em que a livre execução artística dá forma a um som impactante. Mas seu maior destaque é continuar exercitando nossos ouvidos a viajar para um mundo particular de um artista que parece legitimamente não viver o zeitgeist e assim, paradoxalmente, nos ajudar a entender melhor a música de hoje.

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.