Resenhas

Devendra Banhart – Ape in Pink Marble

Artista revisita sua própria melancolia em álbum sereno

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Ano: 2016
Selo: Nonesuch
# Faixas: 13
Estilos: Indie Folk, Indie, Folk Psicodélico
Duração: 43:46
Nota: 4.0
Produção: Devendra Banhart, Noah Georgeson, Josiah Steinbrick

Olhar para a carreira de Devendra Banhart, que chega em 2016 com seu nono álbum, intitulado Ape in Pink Marble, é perceber que o artista amadurece sem necessariamente se “reinventar”. Ao longo de suas composições, que, é claro, mudam de tom conforme passam os anos, é possível perceber uma redescoberta de si mesmo enquanto artista. Banhart faz como compositor aquilo que fazemos na releitura de um livro já conhecido, quando percebemos novos detalhes, nuances e sentidos, que, na verdade, já estavam lá.

Por isso, ouvir Ape in Pink Marble é como redescobrir o mesmo Devendra Banhart, mas com um frescor de novidade. Podemos perceber a mesma delicadeza de outrora. Sua voz trêmula que canta “arrastada por melodias um tanto sombrias, desesperançosas”, por exemplo, é a mesma de Mala. Em geral, seus arranjos soam etéreos e suas melodias, dessaturadas. A amargura é evocada por um espaço preenchido de vazios.

No entanto, embora as faixas que abrem e encerram o disco – os singles Middle Names e Saturday, e, além destes, a trinca Linda, Lucky e Celebration – sejam marcadas por essa melancolia condescendente, alguns outros momentos contribuem para texturas mais heterogêneas dentro do trabalho.

Good Time Charlie, por exemplo, equipara-se a Connan Mockasin e resgata os tempos psicodélicos do músico. Jon Lends a Hand homenageia Jonathan Richman, uma influência que, possivelmente, paira por toda a obra de Banhart.

Já a tríade que ocupa o centro do trabalho é, talvez, o momento mais deslocado dentro de Ape in Pink Marble. Fancy Man fala sobre um dândi, um universo que não é tão distante assim daquele habitado por Banhart, e soa como um misto de crítica social e mea culpa. Essa última, somada a Fig in Leather e Theme for a Taiwanese Lime in Green, forma o momento animado e colorido do trabalho enquanto, estranhamente, acaba por revelar também o olhar de um americano que vê a cultura oriental como algo exótico e caricato.

Tal qual o antagonismo entre a figura que seu título sugere e a figura que sua capa mostra, Ape in Pink Marble é um olhar ao mesmo tempo melancólico e cor de rosa, angustiado e sereno, surreal e extremamente simples, sobre nós mesmos.

(Ape in Pink Marble em uma música: Middle Names)

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.