Resenhas

Diggs Duke – Offering for Anxious

Surprendente vanguarda é exposta no som do músico que cria uma mistura de Soul e Jazz de forma extremamente contemporânea e criativa

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Ano: 2013
Selo: Brownswood Recordings
# Faixas: 10
Estilos: Soul, Jazz
Duração: 23:56
Nota: 4.0
Produção: Diggs Duke

A esperada estreia de Diggs Duke é curta. Infelizmente, curta. Se o nome de sua obra remete à ansiedade, sintoma que todos nós, da mesma forma que o artista, percebemos ser algo cada vez mais comum em uma sociedade imediatista, podemos concluir que, se ao longo de 23 minutos podemos escapar da realidade que nos abraça, essa sensação é – mais uma vez – infelizmente curta.

Offering for Anxious é a oferenda deste talentoso multi-instrumentista, um remédio paliativo para acalmar as almas desfocadas e elétricas que temos atualmente. Se a intenção aqui é traduzir-se em tranquilidade, no entanto, temos um som potencialmente contemporâneo, mas, ainda assim, com ares antigos. A mistura de Jazz com Soul nos remete a tempos passados, mas Diggs não força a barra e acaba consolidando-se como uma expressão natural e artística de influências passadas do músico.

Interessantíssima, a mistura vista aqui é extremamente atual. Percussões abrem Harsh Words With the Oracle e nos introduzem à bela voz de Duke. No entanto, as variações encontradas aqui são amplas, passando de arranjos simples no piano a improvisações no clarinete e no saxofone. Todos os instrumentos no disco foram gravados pelo músico, o que surpreende pelo seu virtuosismo e nos faz entender melhor o som escutado aqui.

Crazy Like A Fox , para uma faixa Soul, demora muito mais que o comum para que o principal – a voz – apareça. Passagens instrumentais viajantes fazem parte de três quartos da música para que, somente ao fim, Duke cante efêmeros versos. Não estamos acostumados a isso e, em uma entrevista recente, o cantor explicou que a intenção na faixa é mostrar-se como os relacionamentos humanos são criados. Primeiro o olhar, depois o gesto, para somente no momento seguinte escutarmos o “oi”. A voz é a consequência de outras sinalizações que aqui surgem a partir de uma ótima orquestração.

Em uma comparação básica, a voz de Diggs lembra bastante a de John Legend mas enquanto o segundo sempre abraçou mais a música Pop, o segundo experimenta por diferentes vertentes. Sweat Like Sieves com sua percussão feita em palmas é praiera e alegre, e pode ser considerada uma pseudo-Bossa Nova, enquanto o básico é tratado em Born From You, música que o cantor consegue preencher todos os espaços com sua voz.

Não estamos acostumados com o som visto aqui, as viradas não são tão previsíveis, as levadas são de outra época – mas, ao mesmo tempo, tangentes – e todo o trabalho é bastante experimental, sendo uma verdadeira expressão do músico. Apesar da curta duração de Nine Wining Wives, ou do disco como um todo, as canções começam e terminam sem deixar marcas de que poderiam ser melhor finalizadas. O Soul só existe aqui devido à voz de Duke porque tudo é inspirado no puro Jazz. Lion’s Feast é maravilhosa, com seus ares progressivos vindos dos sopros tocados pelo músico, enquanto o clarinete que preenche os espaços de Something in my Soul são a cereja no bolo do disco. Mass Exodus faria Flying Lotus chorar de alegria ao perceber que a retomada do espírito jazzístico também abraça músicos analógicos.

Ao final do curto espaço de tempo entre a primeira e a última faixa, conseguimos viajar estaticamente com um som ao mesmo tempo contemporâneo e enraizado no passado. Como duvidar de um artista que gravou de forma instrumental todos os elementos de um disco que parece ser sua real expressão? Percebemos que só podemos afirmar que a vanguarda exposta no som de Duke, uma mistura de Soul e Jazz criativa é de certa forma inédita atualmente. De forma tangível mas ainda assim bastante original, Offering for Anxious termina como o remédio que o músico propôs e consegue acalmar a minha ansiedade como poucos artistas conseguem.

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ARTISTA: Diggs Duke
MARCADORES: Jazz, Ouça, Soul

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.