Resenhas

Disclosure – Settle

Produtores londrinos contam com um time pesado de colaboradores para lançamento de álbum de estreia que se aproxima do Pop

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Ano: 2013
Selo: PMR
# Faixas: 13
Estilos: Future Garage, R&B, Deep House
Duração: 59:59
Nota: 4.5
Produção: Guy e Howard Lawrence
SoundCloud: https://soundcloud.com/disclosuremusic/f-for-you

Se eu não conhecesse Disclosure desde 2011, certamente esses garotos iriam me chamar a atenção agora. Cada vez mais pessoas insistem em comparar o novo álbum do duo com o recém-lançado Random Acess Memories, não no gênero, mas ao gosto popular mesmo. Enquanto produtores renomados não gostaram (ou simplesmente não entenderam) a obra dos franceses, vários deles se misturam com bons críticos para enaltecer Settle, álbum de lançamento dos irmãos.

No entanto para chegar nesse nível de comparação, é preciso duas coisas. A primeira é estrada. A dupla está na leva de produtores jovens recém estourados da cena eletrônica e vem conquistando espaço há 3 anos. Naquela época, com uma proposta mais experimental, Howard e Guy Lawrence – o primeiro com apenas 15 anos e o segundo com 18 – tinham como referência Joy Orbison e Flying Lotus. A bass culture chamava atenção porque vinha carregada de influência noventista, um Hip Hop com Deep House. Os irmãos se projetaram depois de um single, Offline Dexterity, pela Moshi Moshi, Carnival/I Love… That You Know e depois com a incrível Blue You.

Com o tempo, o Chillwave foi dando espaço para uma transição do experimental para o Future Garage, uma série violenta 2-step com muito R&B no glorioso The Face, do ano passado. Saindo de uma forte veia James Blake e encontrando um espaço no Funk, Disclosure entrou de vez para a lista de produtores prodígios. O motivo? Entender a necessidade que a cena tinha de misturar elementos, criar um gênero independente. Eles encantaram o mundo por não saber se prender, por não se limitarem, por não ficarem acomodados. O Chill veio com Deep que adentrou no R&B e agora surpreende ainda mais.

Settle tem treze faixas e um time pesadíssimo de colaboradores. De Sam Smith (que emprestou a voz para ilustrar uma das melhores músicas de 2012, Latch) a Ed Macfarlane (o frenético vocalista da banda Friendly Fires). De Aluna George (que pintou uma das faixas mais envolventes desse ano com White Noise) a Eliza Doolittle. De Jamie Woon a Jessie Ware. Os vários tons se misturam com uma base inconfundível que se completa na maioria das vezes nas colaborações. Mas o time aleatório (ou não) veio com qual objetivo? O lançamento de estreia do Disclosure pinta um quadro Pop. Essa é exatamente a segunda razão pela qual não se deve compararar o disco com a obra do Daft Punk. Os irmãos Lawrence jogaram todas suas influências no triturador e fizeram um Pop sofisticado, cheio de referências. Sairam de um patamar para um nível que geralmente produtores alcançam depois de muita maturidade musical, aprender que se aproximar do comercial não dói se saber fazê-lo, entender que é um destino certo para abranger um maior número de fãs e fazer de forma profissional e cheia de personalidade.

Já era previsível que trilhassem esse caminho, principalmente depois de Latch e White Noise. Além das já citadas, o álbum já inicia com um terceiro recém lançado: When a Fire Starts to Burn. A faixa, que dá início a Settle, traz uma energia Philly muito grande, e um pack de sintetizadores grooveados típicos do Deep House. A mesma linha se segue na melhor faixa do álbum, F For You, assim como em Defeated no More (que mais parece um remix do duo para o Friendly Fires), Stimulation e Voices. E essa é a ideia do Disclosure. Settle vem para ser o acompanhamento do sex on the beach que se toma perto da praia. Cumprem bem a intenção de relembrar os synths calorosos de Acid House, um som Chicago, caloroso, ensolarado. É difícil, em toda obra, encontrar falhas ou desatenção com os detalhes. O registro é altamente bem produzido, talvez aí esteja um ponto em comum dos londrinos com os parisienses.

As faixas que os Lawrence fizeram por conta própria são nitidamente tímidas – com exceção da apaixonante F For You-, no sentido de não conseguirem inovar tanto. Os efeitos do vocoder e os elementos de percussão são bem parecidos com tudo que foi lançado nos primeiros trabalhos dos irmãos. Simulation e Grab Her estão aí para exemplificar isso. O estranho é que, inclusive quando a crítica é negativa, em sua essência, as faixas não deixam de ser boas, bem trabalhadas.

Settle fala de amor, discorre sobre relacionamentos, traz uma juventude que os londrinos estão latejando. A idade dos dois (18 e 21, atualmente) não deixam isso ser uma mentira. Mas não se pode subestimar a capacidade desses meninos. Assim como a maturidade para o lançamento de um trabalho com nível tão alto, vem também uma boa estratégia para espalhar seu conceito para ouvidos também comerciais. Não é muito difícil já imaginar não só uma, mas várias faixas dessas dando certo em pistas. Em rádios. Em festivais. Como singles ou não, Settle é difícil de pontuar um número baixo de favoritas. O roteiro puxou bem o álbum do começo ao fim, assim como a escolha da ordem das faixas. Disclosure entende a carência hoje de referência da cena (não só eletrônica). O UK Garage (ou Future Garage?) segue amarrando a identidade musical da dupla, mas há pitadas de Electroclash em Confess to me, R&B em White Noise, Dubstep em Second Chance e uma linha oitentista na faixa que fecha o trabalho, Help Me Lose My Mind* (colaboração de London Grammar). Mas ao mesmo tempo parece que tudo se encaixa, se mistura e se completa. O duo não tá aqui pra reviver uma fórmula que deu certo. Howard e Guy estão aqui usar de boas influências para criar uma música pro futuro. Seja ela Pop ou não, comercial ou não, o mais importante é que não soou clichê nem vendido. Soou como a maturidade de meninos que, sob olhos de críticos, já são mais homens do que muitos veteranos por aí.

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BOM PARA QUEM OUVE: Duke Dumont, AlunaGeorge
ARTISTA: Disclosure

Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King