Resenhas

Divino Niño – Foam

Novo disco da banda norte-americana com raízes colombianas é uma tentativa genérica de psicodelia, mas que agrada quando se rende ao seu lado mais Pop

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Ano: 2019
Selo: Winspear Records
# Faixas: 10
Estilos: Indie Pop, Psicodelia, Bedroom Pop
Duração: 33’
Nota: 3
Produção: Divino Niño

Dedicar-se ao exercício de entender as referências de um artista e traçar um paralelo entre elas e o resultado final de seu trabalho é uma atividade bastante curiosa. Principalmente quando a discrepância é muito aguda. É interessante perceber como o que chega aos nossos ouvidos nunca é uma cópia direta, mas uma percepção subjetiva. Um conteúdo que, verdadeiramente, atravessa as experiências sentimentais de alguém sempre reaparece com alguma marca, algum desvio de sua “versão original”.

Isso posto, a banda com raízes colombianas, mas natural de Chicago, Divino Niño demanda de nós esse esforço. Principalmente porque, segundo o guitarrista do grupo que acaba de lançar seu LP Foam, alguns mártires da música psicodélica só apareceram na vida dos integrantes quando já eram adultos. Assim, é fácil perceber os ecos dessas sonoridades ressoando por sobre o contexto contemporâneo e latino em que o disco se insere. Talvez, o melhor exemplo disso sejam as baladas românticas: são nítidas as alusões a clássicos como o álbum branco dos Beatles, de 1968, ou ao Pet Sounds (1966) dos Beach Boys. A excelência da composição Pop e as sinuosidades das melodias hipnóticas nesses casos, fatalmente, encostam nesta parede histórica.

A surpresa fica a cargo do tempero latino-americano que passa muito longe do sentido estereotípico trazido pela World Music para o continente. Pelo contrário, brilham aqui ressignificações alinhadas ao que os artistas daqui têm a dizer para o mundo. Pense em Aterciopelados, Boogarins, Cuco e (por que, não?) Roberto Carlos – estrela brasileira diretamente citada pelo Divino Niño.

Contudo, olhando para o todo, o disco ainda não escapa de alguns clichês que, embora não soem mal, prejudicam o ritmo da audição. Por exemplo, é difícil ouvir faixas como “Plastic Love” ou “B@d Luck” e não sentir certa familiaridade. É quase como se já tivéssemos as escutado em algum disco do Mac DeMarco ou do Real Estate, principalmente quando se fala em linhas de sintetizadores. É exatamente nesse esforço de modernização que eles acabam desembocando em seu oposto: a sensação de músicas muito parecidas entre si. Aliado a isso, a previsibilidade das progressões também pode desestimular o ouvinte.

Quando investem na simplicidade, os participantes do Divino Niño alcançam resultados mais significativos. Foam tem algumas canções cativantes que conquistam por meio de suas melodias de fácil assimilação. É o caso da canção que dá título ao registro. Ela brinca com guitarras cheias de suingue que se combinam a sintetizadores fantasmagóricos: uma contraposição bem-vinda entre medo e prazer. A divertida “Coca Cola” tem uma construção Indie que pode ser descrita como um híbrido entre Girls e Porches. Vale lembrar também dos momentos em que o espanhol entra em cena. Em “Maria”, o “corno millennial” aparece: “Maria, de noite me dizia / Que não me queria”. Por fim, a ligeiramente lisérgica “Cosmic Flower” pinta uma paisagem ensolarada, repleta de delays e violões daqueles que tocariam em volta da fogueira de um acampamento de inverno.

Longe de ser o trabalho mais inventivo da banda, Foam é bem-humorado, rendeu boas faixas para se ouvir na estrada, mas ainda cai em certas mesmices. Mesmo assim, a postura do grupo deixa escapar uma faísca do que pode ser um futuro promissor que, por enquanto, se resolve melhor ao deixar-se levar pelo seu lado mais Indie Pop.

(Foam em uma faixa: Cosmic Flower)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.