Resenhas

DJ Sabrina The Teenage Dj – Charmed

Produtora inglesa imerge em referências adolescentes da virada do milênio e as traduz a partir de Dance Music refinada

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Ano: 2020
Selo: Spells On The Telly
# Faixas: 31
Estilos: Eletrônica, Dance Music
Duração: 184'
Produção: Sabrina Spellman

A nostalgia desliza com facilidade para dentro da arte e da apreciação da arte. Na música, isso fica ainda mais evidente quando, ao escutarmos um disco que faz parte de nossa memória afetiva, soltamos frases como “no meu tempo era melhor”, “que época boa que não volta mais” ou ainda “não se fazem mais músicas como antigamente”. É como se a nostalgia fosse uma zona de conforto, amparada por um componente emocional fortíssimo. Afinal, o lugar mais distante das responsabilidades e preocupações é o passado editado em nossa cabeça – que apenas mostra cenas já conhecidas e cujo final já sabemos.

Este apego às sonoridades do passado é, por vezes, mal recebido pela crítica especializada, que aponta algo como uma preguiça criativa e falta de autenticidade. Mesmo assim, a nostalgia parece ser um tempero essencial para que determinado público seja cativado. É justamente desta experiência nostálgica que a DJ e produtora inglesa Sabrina Spellman se vale para criar sua obra que, ainda assim, é bem mais profunda do que apenas um saudosismo.

Procurando um nome que funcionasse de forma irônica – aos moldes de DJs de Lo-fi House – mas que, ao mesmo tempo, apresentasse seu mundo, Sabrina encontrou a alcunha perfeita para seu projeto de mergulho no passado: DJ Sabrina The Teenage DJ, referência à série infanto-juvenil Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira, transmitida pelo canal Nickelodeon nos anos 1990/2000. Apesar de possuir pouco mais de mil seguidores em seu Instagram, a produtora já coleciona cinco discos lançados sob a forma de mixtape – uma pentalogia que vem incrementando desde 2017. Mesmo no formato mixtape, a duração dos registros chega a assustar, e alguns ultrapassam a marca de três horas, com uma média de 30 faixas por registro. Sabrina produz praticamente uma série de DJ sets com diferentes propostas e linguagens, não apenas musicais, mas também audiovisuais, com recortes de diálogos de filmes e séries das décadas de 1990 e 2000. É justamente de uma dessas referências que o seu último lançamento, Charmed  (nome também de uma série  da época), retira sua inspiração. Na verdade, ele é o ponto de partida para uma experiência extremamente imersiva e, como Sabrina Spellman tem demonstrado com maestria em seus últimos registros, amplamente nostálgica para o público millennial.

Sua devoção ao período é expressa logo de cara em sua identidade visual. Sabrina busca inspiração na estética dos Game Boys e dos primeiros computadores com uma qualidade gráfica um pouco mais elevada – algo entre o computador do milhão e os primeiro iMac coloridos. Esta proposta reverbera ídolos teens do universo pré-adolescente, não apenas Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira, mas também personagens de 90210 e cantoras como Britney Spears. O resultado é uma grande amálgama neon e pixelada que utiliza o aspecto audiovisual para pintar um flashback dos mais atraentes.

Mas a força do projeto vem mesmo da música produzida. Sabrina mostra suas habilidades como uma exímia pesquisadora musical, garimpando samples de cantos improváveis dos anos 1990, como rádios adolescentes, especiais da MTV e comerciais. É possível colocar toda sua criação sonora sob o grande guarda-chuva que é a Dance Music e seus subgêneros.O registro solta bombas de House Music, Eurodance, Dance Pop, permeadas por batidas marcantes de bumbo, que se unem a melodias cirurgicamente genéricas e cativantes. Tudo amarrado por um trabalho incrível de ambientação, repleto de diálogos de séries, estática de rádio, barulhos de TV (e até mesmo do finado ICQ). A escolha de ilustrar os arranjos musicais com diálogos vem de um antigo desejo de Sabrina de se tornar compositora de trilhas para filmes. Em entrevista, a produtora comentou que encara cada faixa como um filme em potencial, com narrativas, ritmo e histórias próprias.

Escutar o repertório completo traz a sensação de estar em uma festa do fim dos anos 1990/início dos anos 2000, sem hora para acabar – mergulhado fundo dentro de uma espécie de zeitgeist da época. Charmed é um exemplo categórico de como a nostalgia pode servir como norteador artístico e, ainda assim, propiciar algo autêntico. Sabrina Spellman constrói uma máquina do tempo que, ao encerrar sua viagem, nos deixa, além de contagiados, confusos, tamanha a cara de atualidade que ela dá ao passado.

(Charmed em uma faixa: “Next To Me”)

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ARTISTA: DJ Sabrina

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.