Resenhas

DJ Shadow – Our Pathetic Age

A arte do sample continua inigualável nas mãos do produtor que esconde pérolas em seu novo álbum duplo

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Ano: 2019
Selo: Mass Appeal Records
# Faixas: 23
Estilos: Rap, Rap Instrumental, Turntablism
Duração: 91'
Produção: DJ Shadow

Desde que o californiano Josh Davis foi apresentado ao mundo em 1996 como DJ Shadow em Entroducing… (1996), sua discografia esteve sob a sombra inevitável do clássico primeiro disco. O trabalho de estreia é muito provavelmente o mais celebrado disco instrumental de Hip Hop de todos os tempos ao lado de Donuts (2006), de J Dilla e introduziu a característica mais importante de Shadow: sua técnica anárquica e apurada de samples, que mescla diferentes gêneros, faz uso de transições surpreendentes, mas que soa familiar e, ao mesmo tempo, única. O legado da obra o transformou em um emblemático turntabalist – termo criado em 1995 por DJ Babu para diferenciar o DJ que “apenas toca os discos” daquele que, além disso, mistura, manipula, picota e reorganiza os sons dos vinis. 

Com mais de 1h30 de duração, o álbum duplo Our Pathetic Age (2019), seu sexto projeto de estúdio, segue mostrando os atributos que transformaram DJ Shadow em uma lenda. O disco, produzido inteiramente por ele, traz apenas faixas instrumentais até a metade do repertório, para depois apresentar convidados ilustres como Nas, De La Soul, Ghostface Killah e Run The Jewels. A proposta dicotômica vai além da cisão na tracklist e se apresenta também na sonoridade, que flutua entre a euforia e a melancolia, o groove e a introspecção, a luz e a escuridão. Entre as instrumentais, se destacam “Rosie”, uma sobreposição de vozes guiada por rica percussão, “Intersectionality”, com sintetizadores à la John Carpenter, e “Beauty Power”, jazzeada & estranha bem ao estilo da sonoridade que se tornou marca registrada de Flying Lotus. Ainda há espaço para “Firestorm”, baseada em um piano épico, que poderia tranquilamente fazer parte da trilha sonora de algum filme da Marvel.

Mas é inegável: as pérolas de Our Pathetic Age estão em seu segundo capítulo, acompanhado dos MCs. É nessa parte do repertório em que se sobressaem os variados talentos de DJ Shadow na hora de produzir um beat. Ele navega pelo Boom Bap mais tradicional em “Taxin’”, parceria com Dave East, e “Dark Side Of The Heart”, guiada por um picote de guitarra em loop que serve de cama Fantastic Negrito e Jumbo Is Dr.ama mandarem suas rimas. A velha guarda do Hip Hop também é representada pelos convidados, como em “Rain On Snow”, com o trio do Wu-Tang Clan formado por Ghostface Killah, Raekwon e Inspectah Deck marcando presença, e em “Drone Warfare”, com Nas. Mas o melhor resultado das aparições Old School do disco aparece em “Rocket Fuel”, que traz o carisma e o entusiasmo do De La Soul alternando rimas sob produção enérgica e acelerada. Há o flerte com o Trap em “Small Colleges (Stay With Me)”, cantada por Paul Banks e Wiki, e a influência do House na daftpunkiana faixa-título, com Samuel T. Herring, frontman do Future Islands, nos vocais.

DJ Shadow nunca trilhou caminhos seguros e convencionais na hora de produzir, mas sempre foi capaz de criar camas em que seus convidados rimam confortáveis e prestigiados em suas qualidades fundamentais, mesmo que o beat surpreenda e não siga os padrões com os quais eles estão acostumados. E o resultado dessa ousadia, às vezes, é primoroso. É o caso de “Kings & Queens”, acompanhada do Run The Jewels. A parceria com Killer Mike e El-P já havia rendido a incrível “Nobody Speak”, em The Mountain Will Fall, e, dessa vez, propiciou uma faixa diferente, mas igualmente poderosa. Ao invés da proposta sisuda-hardcore-industrial típica do Run The Jewels, a célebre dupla de Atlanta rima sob uma base cheia de Soul e Gospel, que não se rende ao revivalismo por conta do trabalho percussivo moderno e detalhado feito por Shadow. A urgência nos versos autobiográficos, de como quem escreve um bilhete antes de partir, explode no belo e emotivo refrão cantado pela dupla iamlashell & Vursatyl. 

“There’s never a test too major/ No matter what time may bring/ The weapons amassed to break us made us” (“Nunca há um teste grande demais/ Não importa o que o tempo traga/As armas acumuladas para nos destruir nos fizeram”), diz o refrão da grande música de Our Pathetic Age. A trajetória sonora ao longo do disco – escorado na crítica das relações e idiossincrasias da Era Digital – pode às vezes empapuçar, mas, como tudo o que DJ Shadow faz, guarda segredos que sempre fazem a audição valer a pena. E ele prova mais uma vez que a arte do sample continua inigualável em suas mãos, não importa o que o tempo traga. 

(Our Pathetic Age em uma música: “Kings & Queens”)

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ARTISTA: DJ Shadow
MARCADORES: Rap