Resenhas

dodie – Build a Problem

Em disco de estreia, compositora britânica une Folk e Pop para investigar a própria personalidade e destaca a força que vem das fragilidades

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Ano: 2021
Selo: Doddleoddle/The Orchard
# Faixas: 14
Estilos: Alt-Pop, Folk Pop, Indie Folk
Duração: 37'
Produção: Dodie, Joe Rubel e Pomplamoose

Um disco de estreia, normalmente, traz muitas informações para um ouvinte. Nele pode estar contida uma história que remoída há muito tempo. É até estranho falar em “estreia”, porque muitas vezes pode parecer que este é o primeiro passo de um artista, quando na verdade estes já foram dados há algum tempo. Talvez seja mais uma consolidação, uma espécie de rito de passagem marcando de forma pontual uma presença no mundo artístico. Esta é a história pela qual a cantora e compositora dodie passa. Apesar de apenas agora seu disco de estreia ter sido lançado, ela já vem compondo músicas há quase 10 anos, seja por meio de lançamentos tímidos em plataformas de compartilhamento de música, ou com seus três sensíveis e introspectivos EPs lançados ao longo da década de 2010. Seu estilo intimista e frágil, que traz referências Folk e Pop, chamou a atenção do multi-instrumentista Jacob Collier, que a convidou a participar de um cover de “Here Comes The Sun” em seu disco Djesse vol. 2 (2019).

Dessa forma, fica claro que dodie percorreu um longo caminho até chegar ao seu disco de estreia. Mas no lugar de uma reunião consolidada de ideias, a cantora e compositora resolveu colocar em evidencia um processo. Build a Problem não traz necessariamente uma cantora que tem certeza de suas sonoridades e temas a serem explorados, mas isso não demonstra insegurança ou uma falta de coesão. Muito pelo contrário. O estilo sincero de seu Folk Pop, aliado a uma ambientação repleta de elementos minuciosos, se harmoniza à proposta de dodie de falar sobre mudanças. Ao invés de uma história pronta e já significada pelo tempo, ela investiga sua própria breve caminhada, permeando eáreas nebulosas dos estilos musicais e criando suas narrativas quase como em parceria com o ouvinte.

Em comentário para The Line Of Best Fit, dodie descreve esse disco como um trabalho instável, porém honesto. Parte desse sentimento tem a ver com crises de saúde mental que ela tem vivido há algum tempo. Em seu canal do YouTube, além de sua música, há uma série de vídeos na qual ela conversa com os espectadores sobre sintomas de desrealização durante o COVID, sentimentos de solidão, entre outros vlogs cotidianos. Este compartilhamento de suas experiências (que também funciona como desabafo) parece explicar muito do que dodie é – uma pessoa aberta e em constante reflexão. Assim, um disco fechado, com conceito delimitado, não faria jus à sua personalidade. A matéria-prima do projeto é a sinceridade. Sua abertura é tão grande que a edição deluxe do álbum conta com um segundo disco repleto de demos – ou seja, até aquilo que não está completo, mas é de alguma forma relevante para dodie, entra em Build A Problem.

“Air So Sweet” é a responsável por nos introduzir ao mundo de dodie, uma faixa que traz toda a suavidade de seus vocais, criando uma camada de memórias. Já “I Kissed Someone (It Wasn’t You)” brinca com progressões típicas de um Folk, mas traz um arranjo sorrateiro, com arranjos de cordas e percussão muito sutil. “Special Girl” aproxima dodie de uma estética ASMR de cantar, típico de cantoras como Billie Eilish, mas o instrumental percussivo aponta para uma linha mais Fiona Apple. “Four Tequilas Down” talvez seja a canção mais silenciosa do disco, como se dodie arriscasse acordes e, a partir do momento em que ganha confiança, se abre em acordes maiores e mais altos. Por fim, “Before The Line” esconde ainda mais os vocais tímidos da cantora, sob pianos e violões repletos de efeitos, uma metáfora deste processo de autodescoberta, mas também de autoproteção.

A estreia de dodie é uma comprovação de que muito se percorreu até aqui. E que isso não foi fácil. Com uma sonoridade que muda de humor a cada faixa e letras que cativam o ouvinte a descobrir as páginas deste diário, Build A Problem traz o processo vivo da compositora. O nome do trabalho parece representar esta dinâmica, pois ao mesmo tempo que se cria um problema, ela mostra a nós o processo de resolvê-lo ao vivo. Um trabalho sobre a vulnerabilidade enquanto processo de transformação.

(Build A Problem em uma faixa: “Four Tequilas Down”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.