Resenhas

Don L – Roteiro Pra Aïnouz, vol 3

Primeiro capítulo de uma trilogia é exemplo de que o Hip Hop brasileiro vai além do eixo Centro-Sul

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Ano: 2017
Selo: Independente
# Faixas: 9
Estilos: Hip Hop
Duração: 35:00
Nota: 4.0
Produção: Don L, Deryck Cabrera

Quando Don L lançou sua primeira mixtape solo, Caro Vapor/Vida e Veneno de Don L em 2013, ele já era um veterno. Seu papel entre os fundadores do grupo de Hip Hop cearense Costa A Costa lhe dava credencial para que a estreia fosse repleta de expectativas. Supridas, seu trabalho, de atmosfera hedonista e repleto de batidas sensuais, o colocou em um novo patamar. Veio, então, a mudança de cidade e Don L trocou Fortaleza por São Paulo, tema que aparece no primeiro capítulo de uma trilogia Roteiro Pra Aïnouz, vol 3.

Tomando o nome do diretor brasileiro e conterrâneo, Karin Aïnouz, de Praia do Futuro, Don L cria um script para um filme que tem como tema central a sensação de falta de pertença – sentimento ressoa pela superficialidade da capital paulista. A temática segue por músicas que exploram o prazer de viver, ou, a “cafetinagem da realidade”, mas também expressa posicionamento do Nordeste enquanto região produtiva e musical no Brasil.

Em Fazia Sentido, com Terra Preta, o rapper diz: “Eu lembro do Caetano me entregar um prêmio/De melhor do Nordeste/O que diz sobre isso?/Porque não tinha uma categoria pro Sul/Então era tipo/Esmola pra segunda divisão, tru”. Na faixa, Don L segue explorando a mediocridade da música brasileira e a ambição exageradamente estética dentro do hip hop. A produção da música e do disco, de forma geral, o coloca entre os trabalhos mais inventivos e distintos no gênero no país nos últimos anos.

A escolha de participações especiais que contam sua própria história, como Nego Gallo na excelente Aquela Fé até Cocaína com Fernando Catatau (Cidadão Instigado) (com inclusive um interlúdio dominado por Thiago França), mostra que os planos do rapper para a obra, dividindo-a em três partes, fazem sentido. Do começo ao fim – “volume 3” é a abertura inversa da trilogia -, o aspecto cinematográfica de seu trabalho anterior é mantido, mas com uma montagem distinta. Conectadas, as músicas são planos visuais que constroem uma história – em alguns momentos são slowmotion, como em Mexe para Cam, e em outros frenéticos e motorizados, como em Ferramentas.

Seu flow é um destaque à parte – mais pausado, suingado e escapista de trejeitos tão comumente ouvidos no Hip Hop mainstream atual. Nesse sentido, ao mostrar todas as suas qualidades há 10 anos, Don L volta ao tom da crítica ao prêmio recebido – o papel do rapper nordestino na realidade atual parece longe da captação de nomes como Criolo e Emicida, mesmo dividindo o mesmo nível de excelência criativa. Ao explicitar sua sensação de estrangeiro em São Paulo – e afirmar que tudo é superficial em Eu não te Amo – o rapper propõe uma reflexão das mais profundas ao ouvinte. O resto é pura cinematografia, criatividade e a consolidação de um dos nomes mais importantes do gênero no Brasil.

(Roteiro Pra Aïnouz, vol 3 em uma música: Aquela Fé)

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ARTISTA: Don L
MARCADORES: Hip-Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.