Resenhas

Dorian Electra – My Agenda

Com linguagem musical distorcida e repleta de fúria, artista faz imersão em temas sensíveis sob uma perspectiva queer

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Ano: 2020
Selo: Independente
# Faixas: 11
Estilos: Hyperpop, Dubstep, Experimental
Duração: 25'
Produção: Dylan Brady, Zakk Cervini, Clarence Clarity, Count Baldord, 0llywood, Full Tac,Gaylord, Chris Greatti, Lil Texas, Mood Killer, Sega Bodega, Socialchair, Lars Stalfors, Umru, Will Vaughan

O universo Queer tem trazido ao mundo uma gama de expressões artísticas cada vez mais autênticas e experimentais, fazendo jus à diversidade que tanto lhe caracteriza. A prontidão que tem em desconstruir pilares tão aprofundados em nossa sociedade torna esta comunidade uma especialista em procurar linguagens cada vez mais ousadas, redefinindo os limites das convenções. Dentre tantos nomes, encontramos em Dorian Electra uma artista que se comporta tal qual um organismo vivo, repleto de intenções e desejos que provocam movimentos autênticos e calculados em busca de novas formas de expressão. Apesar de possuir uma curta carreira, cada registro lançado se transforma em algo completamente diferente do que veio anteriormente, criando um diálogo direto com sua identidade de gênero. Dorian se identifica como genderfluid e sua criação musical escapa da ideia de algo estático e uniforme.

A riqueza de sonoridade e a amplitude que sua experimentação alcança parecem ser construídas justamente dessa capacidade que Dorian tem de abarcar diferentes espectros, tanto musicais quanto de identidade. Seu primeiro disco, Flamboyant (2019), bebia diretamente das influências inglesas da PC Music e Gitch Music, referenciadas por artistas como A.G Cook  e Charli XCX. Neste período, Dorian se vestia com ares de fidalgo inglês, algo que transitava entre a pomposidade de uma elite estoica, ao mesmo tempo que criava uma sonoridade mergulhada em um Pop doce e divertido. Entretanto, com seu novo disco lançado, foi necessária uma nova persona para dar forma à mensagem. Forma essa que joga toda aquela pomposidade e mansuetude da era Flamboyant pela janela, abrindo espaço para que os demônios mais internos possam surgir, em um expurgo de caos.

My Agenda traz Dorian vestida de uma figura quase fantástica, porém distorcida sob uma ótica maligna e perversa. A capa do disco já nos apresenta a drástica mudança do trabalho anterior, mostrando Dorian em uma mistura de elementos que apenas comprova quão rápido as coisas podem mudar de um lançamento para outro. Tem-se uma figura élfica, munida de uma espada, com um chapéu e cabelos verdes. Assim, Dorian põe em evidência uma expressão composta de diferentes partes, em que cada uma tem a contribuir para a definição do tom do disco. Entretanto, não é uma reunião de partes tal qual um Frankenstein sonoro. As coisas aqui parecem se direcionar mais para uma proposta Leprechaun, que coleciona tesouros e os guarda com afinco. Ou seja, tudo o que esta nova personalidade de Dorian expressa é parte de seu discurso. A identidade aqui é uma amálgama de tudo que Dorian é.

A sonoridade de My Agenda é certamente mais agressiva, mas não apenas pela necessidade de causar um estardalhaço. Dorian parece escolher esta estética distorcida cheia de referências Glitch, Metal e Dubstep justamente porque apenas estes timbres extremos dão conta de falar justamente sobre a sua “agenda”. O nome do disco faz menção ao termo “gay agenda”, que muitos conservadores nos Estados Unidos usam para definir a crescente onda de interesses LGBTQIA+ nas pautas políticas. Aqui no Brasil, poderíamos traduzir como a famosa “ditadura gay”, repleta de mamadeiras de piroca e Pabllo Vittar indo longe demais. Além disso, Dorian comenta que parte da narrativa deste trabalho envolve discutir temas de difícil digestão como a masculinidade tóxica e os Incels.

Assim, escutar este disco requer um respiro prévio, pois certamente seremos atingidos de uma maneira ou outra. “F The World” já constrói uma tensão nos primeiros segundos do registro, quase como uma abertura de Halloween que logo cede espaço a batidas cortantes e repletas de participações afrontosas (Quay Dash, The Garden e d0llywood1). A faixa que dá nome ao disco abriga dois nomes de peso na comunidade queer (Village People e Pussy Riot), mas os coloca um contexto imprevisível de Nu Metal 2000 intenso. “Barbie Boy” flerta com a Glitch Music do disco anterior, mas acrescenta ainda mais camadas de influência Industrial. A participação mais inusitada vem em “Edgelord”, canção bruta que integra os vocais de Rebecca Black (sim, a garota que virou meme em 2009 por seu single “Friday”). Por fim, em um tom mais brando, mas ainda conservando características distorcidas, “Give Great Thanks” encerra o disco como se fosse uma espécie de We Are The World do mundo abissal.

Apesar de ter menos de 30 minutos de execução, My Agenda é um trabalho grandioso, que coloca no mundo um grito estrondoso. Não é um disco de militância pelo lacre. Tem a ver com colocar para fora uma mensagem que abala desde os gêneros musicais até o próprio ouvinte. Todos os temas são discutidos por uma perspectiva queer e, contrário ao estereótipo que coloca o Pop como o gênero musical “oficial” da comunidade, Dorian procura nestas sonoridades pesadas e calamitosas a linguagem da fúria. O tema das músicas é sensível, mas a estridência de como isso é colocado por Dorian, não. Um disco sobre urgências.

(My Agenda em uma faixa: “My Agenda”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.