Resenhas

Dr. Dog – Psychedelic Swamp

Banda americana volta 15 anos no tempo e regrava seu primeiro álbum

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Ano: 2016
Selo: Anti
# Faixas: 13
Estilos: Lo-Fi, Rock Alternativo, Psicodelia
Duração: 41:49
Nota: 3.0
Produção: Nathan Sabatino

Conhecem West Grove, no estado americano da Pensilvânia? Não, né? Eu também não, mas uma olhada rápida no Google me diz que a população do lugar era de menos de 3 mil pessoas em 2010. Podemos deduzir então que se trata de um cafundó do Judas, um cafofo, um cuchicholo, enfim, você escolhe sua palavra favorita para definir algo pequeno e meio distante. Pois bem, foi neste lugar que o grupo Dr.Dog se formou em fins dos anos 1990. A ideia dos caras era revisitar a Psicodelia sessentista mais clássica, aquela do Flower Power, das bandas mais tradicionais como The Beatles, Byrds, The Rolling Stones, The Doors, Crosby Stills & Nash, temperando essas influências com suas próprias visões musicais, como deve ser. E quais eram essas tais “visões”? O Rock esquisitão marginal da última década do século passado, que seguiu caminho longe de gêneros como Grunge, mais afeito ao Lo-Fi, tendo formações como Guided By Voices e similares como exemplos de boa conduta musical. Sacaram o espírito da coisa, certo? Vamos ao próximo parágrafo então.

Hoje em dia, o grupo desfruta de certa fama nos meios alternativos, excursionando (só por lá, por enquanto), cultivando certa base de fãs simpáticos e adeptos dessa música meio largadona. Até que os sujeitos tiveram a ideia não tão rara de recuperar The Psychedelic Swamp, o primeiro álbum que lançaram, ainda na cidade natal, no distante ano de 2001, ainda sob as leis da pequenez artística, naquele estágio pouco além dos ensaios, com a sonoridade ainda não completamente moldada e o mundo esperando. À medida que ficamos mais velhos, percebemos que há muito tempo contido num intervalo de quinze anos e é esse caminho de volta às origens que a banda empreende hoje, se valendo do fato deste primeiríssimo álbum ter ficado restrito a um círculo muito restrito de pessoas. A ideia é boa, vai, até porque, o grupo acumulou quilometragem suficiente para olhar com interesse para este tempo meio remoto. Além disso: se fosse possível voltar quinze anos, você não iria nessa e consertaria algo? Eu iria.

O resultado é bem legal, ainda que não seja surpreendente. As gravações originais perderam seu frescor, como era esperado, e certo profissionalismo ocupou seu espaço. Esta circunstância pôs as composições à prova e só as mais interessantes passaram sem se despentearem por esta revisita. Duas cançonetas sobressaem logo de cara: Bring My Baby Back, com uma levada clássica e cadenciada, refrão bonitinho e uma aura de música de amor perpetrada por nerds sofredores por alguma menina linda que não lhes dá nenhuma atenção. A outra, Swampadelic Rock conservou seu jeitão de rascunho sonoro, ostentando teclados contrabandeados, vocais graciosos, efeitos de garagem, tudo meio fora do lugar mas funcionando com espírito de gambiarra. Certo clima apocalíptico e solene dá as caras em Holes In My Back, lembrando um pouco os primeiros dias de The Flaming Lips, enquanto a faixa seguinte, Fire On My Back tem vocais beatlemaníacos, andamento Pop linear e uma melodia bonita, tudo entregue de mão beijada à esquisitice Lo-Fi que a banda tentou preservar.

Alguma doideira inocente dá as caras em Swamp Descent, quase uma vinheta, com vocais celestiais e coaxos pantanosos. O passo seguinte é Engineer Says, com andamento lento, percussão estranha, guitarras indigentes, tudo sugerindo largação sonora total. A ambiência beatle novamente surge experimental e com acento bem interessante nos vocais de In Love, lembrando bastante John Lennon. Badvertise tem levada pseudo-dançante empurrada por palminhas e timbres estranhos de teclado emulando baixo, feita sob medida para seres estranhos saírem dançando, caminhando para o fecho com as duas últimas faixas: a aerotransportada Good Grief, sessentista, bonitinha e a doidinha Swamp Is On, lenta, cinematográfica, cheia de tecladinhos e ruídos de fundo, com o pântano em festa.

Com resultado irregular e alguns excessos, Dr.Dog empreende essa viagem de volta ao passado recente, revisitando suas canções e a si mesmo, oferecendo ao público uma rara chance. O disco é simpático e a atitude é boa e interessante, mas não vai muito além disso.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.