Resenhas

Drive by Truckers – English Oceans

Cheio de emoção e belos arranjos, novo disco da banda apaixona o ouvinte instantaneamente

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Ano: 2014
Selo: ATO
# Faixas: 13
Estilos: Rock
Duração: 60:28
Nota: 4.0
Produção: David Barbe

É provável que os integrantes de Drive By Truckers não tenham imaginado um disco como se fosse um roteiro das variantes possíveis dentro daquilo que se conhece como Alternative Country. Mesmo assim, de forma absolutamente casual, podemos afirmar que English Oceans, seu décimo disco de estúdio em 16 anos de carreira, é um saudável retorno ao som mais cru que o grupo praticava na aurora dos anos 2000. Saem os discos conceituais mais recentes, voltam à tona as origens sonoras do grupo e aí pode ter lugar a impressão de um álbum totalmente imerso no clima do fim dos anos 1990, quando era legal e viável propor uma alternativa para o “Country” através da mistura do estilo com “Rock” mais clássico e, por que não, “Punk”. Sendo assim, finja que estamos em Athens, Georgia, por volta de 1998.

O cérebro da banda, Patterson Hood, deixou de lado sua primazia nas composições e vocais, o que permitiu a chegada de Mike Cooley, colaborador discreto em termos de canções. Essa interação, que sempre foi muito mais pendente para Hood, conferiu frescor e urgência às composições, além de um clima descontraído que é palpável ao longo do desfile das treze faixas. A abertura com Shit Shots Counts propõe a pegadinha primordial: seria Mick Jagger nos vocais? Seria uma banda reempacotando algumas sonoridades clássicas dos “Stones” setentistas e remetendo-as via Fedex para o interiorzão da América? Sim, certamente. O clima é de festa, de bailão na beira da estrada, de amores noturnos que se duplicam ou triplicam de acordo com o teor alcoólico do ouvinte. A maravilha que é When He’s Gone nos faz lembrar de um sem-número de bandas do sul da América, mas algo em seu refrão ou andamento também nos aponta para alguma formação alternativa dos anos 1990, numa agradável maré de “dejá ouvi”. Primer Coat lembra en passant os conterrâneos do REM, mas os vocais de Hood oscilam entre os registros de um Johnny Cash adolescente e um Lou Reed redneck, algo improvável, ainda que seus ouvidos teimem em desafiar a lógica.

Pauline Hawkins é puro Replacements/Paul Westerberg, mas sem a dinâmica de baixo/bateria que caracterizam a antiga formação, pioneira ao lado do Uncle Tupelo, na cunhagem do próprio Alt. Country. A sequência com Made Up English Oceans ressuscita um Bob Dylan pantanoso, menos fanhoso e mais objetivo, enquanto a fusão de bandolins e guitarras, anunciando o início suingado de The Part Of Him, mostrando que Drive By Truckers sabem alternar as levadas mais angulosas com uma certa malemolência. O Rock mais clássico e direto surge em Hearing Jimmy Loud, novamente com os vocais de Hood alternando versões locais de Lou Reed e Johnny Cash. A levada clássica “stoniana” ressurge de forma bem natural em Till He’s Dead Or Rises, misturando aos vocais jaggerianos uma discreta tendência para pregações em sermões em igrejas de dogmas pra lá de duvidosos. A baladinha plácida Hanging On pisa no freio, mas percebemos que é apenas para respirar fundo e arremeter à toda força para a sequência final do disco, que tem início com o clima ébrio e dolente de Natural Light, que bem poderia ser um lado B esquecido pelos Faces, não fosse o vocal grave.

A beleza Folk de When Walter Went Crazy mostra novamente uma veia bem próxima da versão que os ingleses do Faces faziam da encruzilhada entre Rock, Blues e os outros estilos próximos. A melhor canção do disco, First Air Of Autumn é um Country à moda antiga, cheio de bateria com vassourinha, levada rápida de violão, podendo ser o fundo musical ideal para cruzar os estados sulistas. A própria banda sugere o destino, Grand Canyon, com personificação na última faixa, talvez simbolizando o tamanho do vazio existencial que todos carregamos. English Oceans é uma beleza de disco, cheio de emoção, belos arranjos, vocais apaixonados e uma banda que está em plena forma após tanto tempo na estrada. Vale ouvir e amar.

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BOM PARA QUEM OUVE: Jawhawks, Whiseytown, Ryan Adams, Wilco
MARCADORES: Ouça, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.