Resenhas

Dry Cleaning – New Long Leg

Disco de estreia da banda londrina traz uma sonoridade fincada no Post-Punk, mas com liberdade para imprimir toque pessoal autêntico ao narrar sobre o mundo real

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Ano: 2021
Selo: 4AD
# Faixas: 10
Estilos: Indie Rock, Post-Rock
Duração: 41
Produção: John Parish

Há tempos, o Post-Punk tem reunido uma série de entusiastas assíduos por uma sonoridade que rasteja pelas sombras, ao mesmo tempo que proporciona voos altos a partir de seus ecos industriais. É uma estética de muitas facetas e que, por estar associada ao Punk, conserva certa carga de agressividade, porém misturada a timbres menos ríspidos e mais úmidos. Sua potência está justamente nessas áreas borradas, nessa imprecisão que nos coloca uma falta de referencial claro, mas ao mesmo tempo, nos permite esgueirar por entre diferentes sentimentos.

É nesta mistura de sensações que a banda londrina Dry Cleaning encontrou um terreno propício para plantar e colher frutos agridoces com seu Post-Punk. Já em seu primeiro EP, Sweet Princess (2019), era possível notar o quanto esta característica ambígua do gênero era particularmente útil para o grupo. Não havia aquela urgência e agressividade de propor um som destrutivo e anárquico, tampouco viver em meio ao conforto dos ecos suaves e das experiências com o Dream Pop. Dry Cleaning parecia ficar exatamente no meio destes dois termos – fato que pode fazer o ouvinte se perguntar se de fato esta é uma banda tão Post-Punk assim. Entretanto, o mínimo resquício dessa dúvida pode ser atirado ao lixo assim que apertamos o play de New Long Leg, o primeiro disco de estúdio da banda.

Discos de estreia costumam passar a impressão de “banda novata” mas, no caso de Dry Cleaning, a realidade não poderia ser mais diferente. Os dois EPs lançados anteriormente certamente trouxeram bastante prática com a experimentação nas fronteiras do Post-Punk, tornando este disco de estreia um momento para apresentar os resultados desta pesquisa. O fruto disso é um disco que conserva as características mais essenciais do gênero para a proposta da banda – como riffs repetitivos, baixos brutais e baterias ágeis. Entretanto, a banda toma passos para além de uma mera reprodução dos estereótipos do gênero, colocando elementos autenticamente seus em consonância com a estética Post-Punk. É nessa mistura que o grupo constrói um organismo vivo, evocando o que há de mais pessoal nas letras destas composições, sem abrir mão da ambientação industrial de suas referências principais.

Parte do apelo da sonoridade tem direta relação com a forma da vocalista Florence Shaw cantar. Na verdade, o termo “cantar” vem aqui empregado como uma mera formalidade, pois durante as faixas instrumentais, ela traz uma dinâmica muito parecida com o Spoken-Word. Parte das suas frases vêm de anotações que fazia em seus cadernos. Não necessariamente letras de música, mas impressões, imagens mentais e pensamentos. Assim, enquanto os outros integrantes estão compondo cenários ambíguos entre o caos e a suavidade, Florence esta declamando estas frases em um tom sereno. Como se estivesse em uma leitura guiada no meio um lugar cheio de coisas acontecendo e de incertezas.

O baixo intenso de “Scratchcard Lanyard” é o responsável por fazer o primeiro movimento em direção a esse Post-Punk falado, mas também imprimindo algumas referências do Indie Rock. “Strong Feeling” é mais sorrateira, rastejando por um terreno já habitado pelo Sonic Youth, mas fazendo menos alarde. A faixa-título é um dos poucos momentos em que Florence se arrisca a cantar algumas notas específicas, dando um certo apelo Pop, mas sem largar o Spoken-Word completamente. Mais pontuada e seca, “More Big Birds” coloca uma dinâmica quase robótica dos vocais com um instrumental que parece duplicado – um ótimo exemplo de música estranhona que o Post-Punk proporciona. “Every Day Carry” encerra o disco confortando o ouvinte da maneira que a banda se propõe: pegando leve nas baterias agressivas e criando texturas infinitas e ecoadas com as guitarras e sintetizadores. Uma canção Punk de ninar.

New Long Leg reflete uma realidade incerta do mundo. Em um artigo publicado pelo Bandcamp, a banda conta que teve que atravessar grandes dificuldades no processo de gravação durante a pandemia e isto parece se expressar nessa narrativa a partir de sonoridades ambíguas. Não é como se a banda estivesse declamando essas frases enquanto o caos está acontecendo. Não há caos, nem paz. Tem um grande híbrido de tudo isso acontecendo no mundo real e cabe a Dry Cleaning narrar sua história pessoal em meio a essa grande e amorfa realidade. Um disco de diversas tonalidades sobre o incerto.

(New Long Leg em uma faixa: “Every Day Carry”)

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ARTISTA: Dry Cleaning

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.