Resenhas

Duck Sauce – Quack

Disco do duo finalmente sai do forno com uma série de faixas que misturam o melhor dos tempos de discoteca à música House atual

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Ano: 2014
Selo: Fool's Gold Records
# Faixas: 12
Estilos: House, Electrodisco
Duração: 48:00
Nota: 3.5
Produção: A-Trak, Armand Van Helden

Há quase quatro anos, uma música explodiria em quase todas as pistas de dança pelo mundo : Barbra Streisand. A faixa, que imortalizaria ainda mais a famosa cantora e atriz, traria nos seus backing vocals (“uuuuuuuuu Barbra Streisand”) o seu elemento viciante e seria simplesmente um hit gigantesco no cada vez mais longínquo ano de 2010. Lembro-me de estar no meu intercâmbio na França, que posteriormente seria expandido para Portugal (com inclusive um show do duo responsável pelo single), e poderia escutá-la em simplesmente todos os lugares em que eu passava. Baladas, festas, shows, lojas – em qualquer lugar, víamos pessoas se divertindo intensamente diante daquele som.

No entanto, A-Trak e Armand Van Helden, os DJs responsáveis pelo projeto Duck Sauce, não lançariam um disco até este ano – um fato curioso, mas não tão inédito no mundo da EDM. Por que isso ocorre? Um hit de sucesso deste porte não inibe aquele que comanda uma pick-up de fazer turnês e tocar intensamente ao mesmo tempo em que produz faixas. Ambos não ficaram fora de atividade e, ao mesmo tempo em que desfilavam por festivais pelo mundo, também lançariam um single ou outro. Big Bad Wolf é um destes casos, assim como outras músicas disponibilizadas no Soundcloud. Agora, ao finalmente poder desfrutar de um tempo para compor (ou simplesmente pós-produzir/compilar as suas ideias), o duo lança Quack, um divertidíssimo álbum com ares retrógrados misturados a House Music.

A relevância de ambos os produtores passa pelo seu selo, Fool’s Gold, famoso no meio da música Eletrônica, além de seus projetos individuais. Porém, mesmo tanto tempo após o seu estrondoso sucesso, ambos se mantém importantes no formato de duo ao criar um trabalho enraizado em elementos da Disco do final dos anos 1970/1980 e criar uma obra estimulante, dançante e, por que não, um pouco brega? É a partir de samples em faixas como Goody Two Shoes, puro embalo de sábado à noite no melhor estilo John Travolta ou na já antiga, primeiro single na verdade do Duck Sauce, aNYway, que colocamos a nossa melhor camisa e calça boca de sino para dançar nos moldes dos bailes e discotecas da época.

A House e a música Eletrônica aparecem sob a forma de um BPM mais rápido, elementos de pós-produção como filtros ou o famoso esqueleto “verso-refrão-batida-refrão-verso”, que cria uma faixa estimulante, mas muitas vezes repetitiva. A inspiração pela Dance Music antiga, um pouco daquele Soul e R&B misturado a elementos sintetizados que Duck Sauce continua aqui e ganha ares de coletâneas do gênero vendidas pelo telefone, mas imagine-as mais bem produzidas e colocadas no contexto de uma revitalização do Funk que Daft Punk nos trouxe no ano passado e você terá uma noção deste lançamento.

Acrescente ótimos interlúdios entre cada faixa, reproduzindo transmissões radiofônicas distintas no melhor estilo das rádios de GTA Vice City e o pacote está completo e funcional – como na divertidíssima conversa ao final de NRG com sotaque italiano, nesta que é provavelmente a faixa mais revival de todo o disco. Imagens dos anos 1980 passam rapidamente pela minha cabeça enquanto o sample repetido, feito para os seus pais dançarem, no bom sentido, e um solo de guitarra que poderia muito bem ter a participação de Van Halen dão o tom aqui. Não pense que a breguice ou o gosto pelo antigo deixam o disco inacessível, pois você com certeza irá se surpreender pela capacidade deste trabalho fazer os seus pés involuntariamente mexerem.

Everyone, com Teddy Toothpick, destoa um pouco do formato sampleado para aparecer como uma composição um pouco mais moderna. O gosto por sintetizadores e a Nu Disco surgem aqui e a música lembra muito Chromeo. A abertura Chariots of the Gods, com Rocket, não faz tanto sentido pois parece muito algo que Justice faria em um Eletro nervoso e bastante contemporâneo. Spandex é outra música muito bem feita com uma roupagem moderna, mas intrínseca as discotecas, e, se a própria Barbra Streisand aparece aqui, mostrando-se relevante e divertida mesmo quatro anos depois, nos surpreendemos com a capacidade do duo em criar hits.

It’s You, com seu sample de música dos anos 1940, cresce de uma forma até que a batida grudenta costumeira de Duck Sauce caia na pista e afete todo mundo, e Radio Shack, flashback total aos melhores momentos da trilha sonora de qualquer filme ou jogo de video game que se passe na época áurea da Disco, são exemplos de singles que estarão em breve – se já não estiverem – nas pistas de dança mundo afora. Em seu primeiro disco, a dupla acrescenta um belo tempero ao molho de pato, o ferve bem em um caldeirão em ebulição e o deixa preparado para fazer mais uma vez o público dançar muito ao seu som, um House com raízes em outros tempos que, no primeiro momento não parece muito inovador (talvez nem seja), mas que é muito bem produzido e chega no momento certo. Se vemos algumas tendências de alguns gêneros abraçarem os anos 1990, como o Rock e o Hip Hop, podemos dizer que o revival da EDM passa muito pela música negra do final dos anos 1970 e aparece nas mais diversas formas: Funk, R&B ou Disco, tudo isso é tendência. Algo que, mesmo sem um álbum até agora, Duck Sauce já vinha fazendo há alguns anos e Quack é a prova que a escolha foi certeira.

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BOM PARA QUEM OUVE: Pharrell, Breakbot, Daft Punk
ARTISTA: Duck Sauce

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.