Resenhas

Duda Brack – Caco de Vidro

Segundo disco da cantora e compositora gaúcha viaja por diferentes influências da música brasileira e promove autoinvestigação intensa e visceral

 290 total views

Ano: 2021
Selo: Matogrosso/Alá Comunicação, Cultura/Altafonte
# Faixas: 11
Estilos: Experimental, Pop
Duração: 32'
Produção: Duda Brack e Gabriel Ventura

Um disco traz sempre o recorte de um determinado artista. Por mais que a prerrogativa óbvia de um álbum seja sempre, de alguma forma, “a história de fulano”, há um enquadramento do que se deseja retratar. Os recortes, por sua vez, aparecem sob diferentes perspectivas: um período, um evento, uma experiência particular, uma vivência. Recortar a subjetividade de uma pessoa é uma tentativa de dar conta da realidade, já que o Real (com R maiúsculo mesmo) é algo que nos excede totalmente, sendo sua percepção total uma utopia. Ainda que não seja possível sentir essa totalidade de forma integral, há artistas que procuram incessantemente uma forma de dar conta desta realidade. Entre estes, está a gaúcha Duda Brack, artista que conserva como marca de sua criação justamente a tentativa de dar conta de tudo que a atravessa.

Em sua estreia com o disco É (2015), Duda já deixou claro que não seria mais uma cantora MPB sambinha-violão. A música para ela nunca pareceu apenas uma forma de trazer entretenimento para um público específico, mas uma necessidade quase fisiológica de se expressar – e, claramente, havia muito dentro dela para expurgar. Coletando referências de diferentes partes da música brasileira, a palavra que melhor pode definir sua obra é a pluralidade. Em um mesmo espaço somos bombardeados com poemas, sonoridades explosivas, texturas mansas, sintetizadores cortantes e guitarras pontuais. Tudo para que Duda expresse suas angústias da forma mais fiel aos seus processos mentais. Após um período de cinco anos, Duda ressurge para trazer um novo recorte de sua vida. Porém, dessa vez, um recorte não dá conta de sua história, é necessário algo mais pontiagudo para trazer diferentes pedaços de um mesmo corpo.

Caco de Vidro é o segundo disco da cantora e compositora, mas já denota um status de artista veterana que sabe utilizar bem os recursos a seu bel-prazer. Na verdade, “prazer” talvez não seja a palavra mais adequada, pois os processos narrados neste disco também consideram outras esferas muito além do prazer. É por isso que para que fosse colocado ao mundo, Duda precisou fazer muitos recortes de si mesma – cada interpretação e significação da sua vida atravessa diferentes aspectos. Um deles é o período que sucede a sua estreia, no qual Duda lidou com a depressão após um relacionamento abusivo, evento que está presente em letras intensas deste trabalho. Entretanto, este não é um “disco de coração quebrado”. Esta é uma faceta de Duda que permeia temas que vão desde o poder político do feminino até um processo de cura pessoal. Os cacos de vidros ganham um sentido ainda mais concreto porque dizem respeito a estas diferentes partes de Duda reunidas no disco. Reduzir estas possibilidades ou editá-las seria sacrificar algo muito precioso para ela: sua história. Em 11 faixas e com ajuda do produtor Gabriel Ventura, Duda se expressa intensamente, mesmo que isso traga recortes tão intensos e profundos de si mesma.

O conceito do disco acaba refletido na sonoridade. Ainda é possível perceber as diferentes influências da música brasileira, porém sempre vistas e revistas sob a ótica dilacerante de Duda sobre si mesma. Em “Saída Obrigatória”, as percussões latinas aliadas a edições ríspidas de áudio dão um tom dramático e teatral à vivência urbana. “Carta Aberta”, por outro lado, é um espaço honesto em que as palavras de Duda são protagonistas totais da faixa – em um formato Spoken Word/monólogo. BaianaSystem e Ney Matogrosso emprestam suas habilidades para dar forma a “Ouro Lata”, uma das metáforas mais agudas do disco sobre os restos que sobram do relacionamento e a incrível capacidade de ressignificá-los. “Macho Rey” vem com az metais quentes em um compasso suingado de um Funk distorcido, abordando o estereótipo do esquerdo-macho e todas as suas particularidades de forma nauseante. “Contragolpe” encerra o trabalho como a faixa que sonoramente é uma grande metonímia da complexidade que o álbum e a sua narrativa trazem.

Neste trabalho, Duda se apropria de sua estética e a eleva a um novo patamar. São os diferentes recortes e, principalmente, a forma agressiva e ríspida deste movimento que tornam Caco de Vidro uma obra tão intensa. Dessa forma, o vidro parece ser o material mais apropriado para caracterizar os cacos de Duda, pois é com eles que ela faz os cortes profundos que sangram, porém expõe tudo que a artista é: complexa e visceral.

(Caco de Vidro em uma faixa: “Ouro Lata”)

 291 total views

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.