Resenhas

El Toro Fuerte – Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo

Trio mineiro mostra que pode haver beleza na tristeza

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Ano: 2016
Selo: Bichano Records
# Faixas: 10
Estilos: Emo, Math Rock, Noise, Lo-Fi
Nota: 3.5

Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo me parece um título no mínimo irônico para um disco que aborda temas que vão de paixões que não deram certo até mágoas do passado, passando ainda por crises existenciais. O novo registro do trio mineiro El Toro Fuerte coloca em um mesmo prato o gosto amargo do ressentimento, a picância da raiva, acompanhado pelo dissabor da consternação e um leve toque da letargia provocada por um comprimido de Prozac.

Mas, não se engane, por baixo dessa cobertura aparentemente niilista existe um disco profundamente belo. Há também encanto na tristeza, e floresce dela dez faixas guiadas por prolíficas guitarras emolduradas no Emo e Math Rock e uma bateria que dialoga muito bem com esses gêneros. O tom Lo-Fi das gravações e o vocal muita vezes descontrolado só contribui para o tom melancólico e pesaroso do registro. Como diria a banda em Flagelo, “O que se diz não voa no vento/se alguém puder perceber a sua dor”.

Com uma mensagem tão forte, são as letras o principal foco do registro, deixando a parte instrumental, que se encaixa bem entre estilos citados e não ousa tentar nenhuma grande novidade, apenas como plano de fundo, ainda assim bastante carregado dos mesmos sentimentos. São versos como “Quando seus pais forem embora/e você se tornar o nada que você construiu/quando não tiver mais uma alma lá fora/será que você vai lembrar de mim?” (Quando seus pais) ou “Nunca se sustenta alma solta e só/feche os olhos e veja/que não há do que fugir/e se não tem mais por onde ir/não vá, e sinta que nós/somos um só” (Camaleoa) que falam mais forte que um arranjo intrincado ou uma dedilhar de guitarra bem trabalhado (caso da instrumental Maple).

Peça quase central no registro, João e o Mar é a faixa que melhor consegue sintetizar o escopo de sentimentos presentes aqui. Dono de versos pesados e reflexivos como “Fui tentar/me encontrar em ti/mas não achei o que esperava/Um milhão de almas perdidas dentro em mim/e as coisas que eu não pude controlar/de repente, se fazem entender/o mundo é muito mais do que eu posso ser” e “E hoje eu vou sair de casa/e o vento e o sol não vão me fazer mal/E eu não vou brigar com ninguém/e eu não vou sangrar/Porque a minha pele já não quer tentar/Voar além das dores que aprendi a aceitar”, a música conta uma dura estória de aprendizado através da dor, ponto central de uma grande narrativa do disco.

Mesmo que altamente anedóticas, é quase impossível não despertar uma ponta de solidariedade pelas crônicas contadas pelo trio, até mesmo porque você já pode ter sido, mesmo que sem querer, personagem de uma ou de algumas delas. E refletindo a ironia do título, a banda encerra seu registro com uma das mais devastadoras músicas, Lembrar É Como Uma Roleta Russa. Devastadora, a faixa encerra a narrativa sem deixar um só pingo de esperança, mas ainda assim “Apesar dos apesares, é mesmo um tempo lindo pra se estar vivo”.

(Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo em uma faixa: João e o Mar)

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BOM PARA QUEM OUVE: Pollux & Castor, Nvblado, gorduratrans
MARCADORES: Emo, Lo-Fi, Math Rock, Noise

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts