Resenhas

Ela Minus – acts of rebellion

Estreia de Gabriela Jimeno usa energia do Techno e suavidade da Ambient para imergir em contradições e angústias contemporâneas

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Ano: 2020
Selo: Domino Recordings
# Faixas: 10
Estilos: Techno, Eletrônica, Ambient
Duração: 41'
Produção: Ela Minus

A música é uma poderosa arma de protesto. Por mais diverso que seja o contexto sócio-político, há sempre composições fortes e instrumentais marcantes prontos para o combate. Seja na forma do Folk poético da década de 1960; do ríspido e agressivo Punk; ou do movimento contra a violência no Hip Hop da virada de 1980 para 1990, o fato é que a linguagem musical tem uma capacidade dupla. De servir tanto como uma arma de combate, quanto de refletir os tempos. Assim, este protesto na forma musical pode se dar em uma relação em que a coisa com o qual se combate é constituída da mesma matéria-prima daquilo que se deseja combater. O ataque é feito do espírito de um tempo.

É desta particularidade de “esponja sonora” que a musicista e compositora Gabriela Jimeno, mais conhecida pela alcunha de Ela Minus, se vale para compor seu disco de estreia. Ela já vem de uma tradição disruptiva da música eletrônica, construindo um porto seguro dentro de subgêneros como o Techno e uma espécie de Ambient Industrial. Sua predileção por um aparato de sintetizadores analógicos lhe proporcionou extrema proficiência com as possibilidades eletrônicas, como se fosse uma “extensão de seu próprio corpo”, como escrito pelo site NSNS.

Assim, durante sua relativa curta carreira, Gabriela foi capaz de instaurar um grande mistério em torno de si. Um mistério cuja não-solução era parte de seus encantos. Agora, no entanto, em seu primeiro disco completo, ela utiliza sua técnica misteriosa e envolvente como forma de dar voz à sua indignação e perplexidade perante a nova década, que já se anuncia em meio a pandemias, turbulências políticas e catástrofes ambientais. Este é o intuito de acts of rebellion.

Gabriela tem uma pretensiosa e ousada missão em suas mãos: retratar, em sons, um tempo que a própria linguagem falada e escrita tem dificuldade de transcrever. Por vezes, nos faltam palavras para compreendermos e chegada dos anos 2020, mas é justamente nessa falta que a compositora encontra um espaço amplo para dispersar as sementes errantes de sua sonoridade. A nova década é representada por Gabriela a partir de um híbrido agressivo entre batidas Techno e a suavidade Ambient, por vezes com tocantes melodias vocais. Ao mesmo tempo que somos pisoteados e massacrados pelo intenso bate estaca, somos confortados pela suavidade de pads etéreos. A mesma voz que parece mansa também tem um tom tenso, como um encantamento sedutor e maligno. É um disco cujas aparentes contradições são exatamente aquilo que formam nosso tempo. Entretanto, estas também são responsáveis pela constante sensação de apocalipse que vivemos – o famoso sentimento de que cada ano parece ter sido o pior.

A questão do disco não é necessariamente tecer um tom pessimista ou otimista, mas admitir que ambas as possibilidades coexistem, causando angústia em nós por não sabermos exatamente o que sentir ao escutar estas faixas. A faixa de abertura (“N19 5NF”), por exemplo, traz sintetizadores estridentes que funcionam ao mesmo tempo como um arranjo de cordas digitais, como uma sonorização de almas penadas e arrepiantes. “megapunk”, por sua vez, sustenta um minimalismo gótico dos anos 1980, belo e soturno. “dominique” mantém a precisão da batida French House, mas também cede aos encantos de um ar Industrial. A parceria com Helado Negro é um exemplo de composição atravessada por sonoridades peculiares, como se a cada instante fossemos interrompidos por acontecimentos imprevisíveis.

A estreia de Ela Minus é arrebatadora do início ao fim, justamente por não nos colocar em uma situação facilmente categorizada, nos obrigando a assumir um papel ativo perante o disco. O protesto de Gabriela está justamente em expor a crueldade das contradições de nosso tempo e refleti-las em sua sonoridade. Ela também nos mostra que as mesmas ferramentas que nos trazem progresso, nos jogam anos luz para trás. Que a vulnerabilidade que nos ameaça é também a mesma posição que nos permite combater as coisas na linha de frente. acts of rebellion é um disco de protesto para tempos indefiníveis.

(acts of rebellion em uma faixa: “dominique”)

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ARTISTA: Ela Minus

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.