Resenhas

Eli “Paperboy” Reed – Nights Like These

Sonoridades Soul muito diluídas marcam o novo trabalho do músico

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Ano: 2014
Selo: Warner
# Faixas: 11
Estilos: Pop
Duração: 35:44
Nota: 2.0
Produção: Eli Reed

Quase dez anos se passaram desde que Eli “Paperboy” Reed surgiu no cenário musical americano – e de lá para o mundo – como um jovem recriador de ambiências e climas da Soul Music sessentista. A ideia de Reed era passear pelas avenidas das variantes mais áridas, pouco polidas do estilo, muito mais para Stax que para Motown. A julgar por seus primeiros EPs e álbuns, Eli conseguiu levar adiante seu conceito e forma próprios de visitar a Soul Music, beneficiado pela onda retrô que teima em não ir embora desde o surgimento de Amy Winehouse. O principal responsável por essa abordagem vintage, mas modernosa, e branca do estilo foi popularizada pelo DJ e produtor inglês Mark Ronson, não por acaso, o mesmo por trás do mega blockbuster mundial de Winehouse, Back To Black. Hordas de bandas, cantoras e cantores próximos e distantes da seara musical negra rumaram para a mesma sonoridade, empastelando as noções do que o estilo significa/significava. Felizmente, Paperboy era um dos poucos – junto de gente como Charles Bradley e Sharon Jones, por exemplo – que se mantinha afastados desse padrão plástico. Agora, finalmente, Paperboy abre mão de algum diferencial sonoro e cai de boca no formato mais Pop da coisa toda. E sai perdendo.

Alguns podem achar purismo, mas Soul Music tem a ver com dor, tristeza e redenção. Quando parece alegre – parece, apenas – é resultado de uma epifania sexual-espiritual. Quando parece dançante é válvula de escape em forma de redenção diante das agruras da vida. É, portanto, um estilo hermético como o Blues, que só sobrevive hoje em sua forma mais pura por conta de gente comprometida com essas noções. Paperboy, mesmo branquelo, parecia compreender esse funcionamento em seus primeiros trabalhos, lançados quando ainda estava em dúvida sobre estudar ou ser músico, consequentemente, enfrentando perrengues diários por conta dessa escolha. Ele desistiria de cursar a Universidade de Chicago, abraçaria a arte de compor, tocar e cantar mas rumaria para o Brooklyn, em Nova York, mantendo-se próximo à linha de montagem de burburinhos e hypes da música. Este seu novo disco é uma rendição incondicional ao padrão mais pasteurizado de produção. Uma grande pena, pois há canções interessantes no álbum, todas compostas por Reed, mas empasteladas de gloss e glitter de estúdio.

Well Alright Now já dá o pontapé inicial nos trabalhos com um balancinho rápido demais, sintetizado demais, cheio de efeitos e palminhas estéreis, moldura cruel para a boa voz de Reed. Grown Up é a próxima parada no percurso, menos empapuçada de tiques e taques de mesa de estúdio, mas que não escapa do frenesi de alterações de bateria, vocais, bumbos e demais artifícios. Woohoo é outra canção na qual melodia e vocais são soterrados por produção equivocada. A faixa título chega perigosamente próxima do padrão de bandas como One Direction e congêneres, desde o refrão de gritinhos à profusão de corinhos e coisinhas.

Lonely World é balada que se pretende sofrida, mas que vai novamente pelos caminhos de gente como NSync, com emulações de dor travestidas de gritinhos e falsetes nos vocais. Shock To The System é a grande jóia deste disco, lembrando muito os sucessos menores da Motown sessentista, apesar da produção maligna e a beleza da melodia disputarem cabo de guerra o tempo todo. Not Even Once segue por caminho semelhante, com progressão de acordes e melodia interessantes, mas que sucumbem aos excessos do estúdio. Shoes é outra que lembra um crossover entre os momentos mais animados do Backstreet Boys e alguma levada Motown diluída como se fosse um envelope de Tang numa piscina olímpica. Ain’t Worth It (Goodbye) lembra coisas lamentáveis como Maroon 5, cheia de malandragem e savoir faire incompatíveis com o estilo. Pistol Shot é frouxa e rasinha, apesar de conter alguns bons momentos vocais e o encerramento com Two Broken Hearts traz mais insights de momentos boy band com tempero de semi-balada com pianos e cantos supostamente desesperados.

É triste falar mal de um artista que parecia tão promissor mas Paperboy Reed talvez tenha escolhido o caminho mais fácil, seguindo a mesma lógica que faz o senso comum achar que programas como Ídolos, Fama ou Superstar são verdadeiros caminhos para novos talentos. Esqueça.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.