Resenhas

Elliott Smith – Figure 8

Último disco lançado em vida apresenta os distintos sentimentos do músico em arranjos complexos e lirismo simples e poderoso

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Ano: 2000
Selo: DreamWorks
# Faixas: 16
Estilos: Indie Pop, Singer-songwriter
Duração: 52'
Produção: Elliott Smith, Tom Rothrock, Rob Schnapf

Existe todo um estigma construído acerca do último disco de um artista. Muitas vezes, ele representa um ponto já descendente de qualidade, marcado por pressões de uma gravadora e precedido de um auge artístico. Em outros casos, como dos Beatles, o final de uma carreira representa o ponto máximo da expressão artística, como no seminal e arrasador Abbey Road (1969). Entretanto, Elliott Smith conseguiu subverter esses padrões ao lançar seu aclamado Figure 8. Apesar de postumamente terem sido lançados outros dois registros, este ainda é considerado o ponto final espiritual da obra de Elliott Smith, o último álbum lançado em vida pelo compositor.

Figure 8 marca um período bastante ambíguo de sua vida. Artisticamente, estamos falando de um período economicamente fértil, sendo este o segundo lançamento de Elliott por uma grande gravadora (DreamWorks Records). Rendendo turnês intensas, um considerável sucesso de vendas e de críticas, este é um disco que concentra um reconhecimento bastante amplo de suas composições. Entretanto, é apenas o lado de fora das coisas. Internamente, a vida do compositor era sucedida de episódios conturbados. O abuso de álcool já se tornava insuficiente para suprir sua dependência e ele começou a utilizar substâncias mais fortes, como o crack. Além disso, há relatos de que Elliott havia sofrido um surto psicótico durante uma sessão de composição (que acabou se tornando a música “Everything Means Nothing To Me”). É nesses antagonismos que se funda a base para a construção de Figure 8, um disco extremamente celebratório, mas igualmente frágil.

O acesso a um maior orçamento e um estúdio completo de gravação proporcionaram novos recursos para que Figure 8 fosse moldado. Estamos diante de uma sonoridade mais inchada, em que arranjos de cordas, coros, bandas completas são ferramentas que potencializam (ainda mais) a qualidade lírica de Elliott Smith. Este aspecto super produzido foi o objeto de crítica de muitos veículos da época, que valorizavam muito mais o tom Lo-Fi de seus discos anteriores. O título do disco parece remeter a esta dinâmica crescente, uma vez que, em entrevista, o compositor mencionou que o número 8 dialoga com a ideia de ciclo interminável, infinito, de tentar se atingir a perfeição. Elliott ainda menciona o movimento de 8 que os skatistas fazem para praticar o controle, uma prática aparentemente supérflua, mas que visa atingir uma perfeição. Nesta mesma entrevista, é curioso que Elliott se refere à perfeição como algo pouco passível de se transformar em arte.

Dessa forma, Figure 8 é construído para além do estigma do último disco e ele conserva uma característica que cumpre os dois lados da moeda. Este, claramente, não é um momento de declínio da qualidade de suas obras, mas também não é um auge comum – é conturbado e atravessado por questões pessoais marcantes. Figure 8 permanece como um disco-processo, um que não tem a pretensão de ser algo delimitado e de definições precisas. Ele registra momentos e impressões de naturezas muito distintas, fato que se revela em diferentes humores que o álbum proporciona. Aliás, a citação dos Beatles no início do texto não foi aleatória, posto que comparações entre Figure 8 e Abbey Road são bastante comuns e tocam em pontos de planejamento conceitual e orquestrações de diversos sentimentos por meio das músicas.

Figure 8 oscila entre diferentes personas de Elliott. Temos o frágil e introspectivo compositor, preocupado em entregar uma mensagem por meio de simples acordes de violão, mas que marcam o ouvinte pela sua sinceridade (“Somebody That I Used To Know”, “Everything Remids Me Of Her”). Há o Elliott atormentado, gênio incansável das composições mirabolantes, explorando arranjos complexos e quebrados em uma espécie de monumento rachado (“Everything Means Nothing To Me”, “L.A”, “In The Lost And Found (Honky Bach)/The Roost”). Há, além desses dois extremos, o Elliott que tenta domar ambas as tendências, oscilando entre diferentes percepções na mesma música (“Wouldn’t Mama Be Proud”, “Pretty Mary Kay”). Em suma, há muitos Elliotts em Figure 8.

O disco é um momento frágil que nos toca com muita força. Talvez este seja o grande legado de Elliot Smith e de seu contínuo movimento infinito de Figure 8: a forma como as palavras mais simples nos atingem diretamente, tal qual um furacão. Em seu último disco lançado em vida, Elliot Smith produz um eco que hoje, 20 anos depois de seu lançamento, ainda se faz escutado e sentido nas entranhas. É um ponto que cronologicamente marca o final de uma obra tão rica, mas, ao mesmo tempo, revela um punhado de reticências para a eternidade.

(Figure 8 em uma faixa: “Everything Means Nothing To Me”)

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ARTISTA: Elliott Smith

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.