Resenhas

Elliott Smith – From a Basement on the Hill

Disco póstumo é um testamento da musicalidade refinada e emotiva desenvolvida por alguém tão talentoso quanto angustiado

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Ano: 2004
Selo: Universal Music
# Faixas: 15
Estilos: Indie Rock, Rock Alternativo
Duração: 57’
Produção: Elliott Smith, Rob Schnapf e Joanna Bolme

Escutar um disco póstumo traz a sensação de experimentar a coda – isto é, os acontecimentos que se desenrolam após o clímax de uma narrativa –, ou mesmo iniciar uma história que você sabe que terá um final triste. Não terá show com essas músicas, os videoclipes não trarão o artista e o ouvinte não poderá cultivar a expectativa de um próximo capítulo. Há, portanto, uma melancolia intrínseca à audição.

Quando se trata de From a Basement on the Hill, esse processo é ainda mais agravado, até porque grande parte das letras retratam os problemas que Elliott Smith tinha com depressão e abuso de drogas. Lançado um ano após seu falecimento, o álbum parece encaminhar o ouvinte até o fim da vida do músico por meio de composições que evidenciam a característica com a qual ele ficou mais conhecido: uma amargura que fala ainda mais alto do que sua maestria como compositor e instrumentista.

Ela não está só na interpretação vocal de Elliott – que, como sempre, se situa entre a timidez e o pesar –, mas também em cada acorde desde a primeira faixa, “Coast to Coast”. Assim como essa, várias músicas trazem ambientação de banda, com seus muitos timbres disputando o espaço sonoro com sua voz, que parece desistir da briga e se afogar na cama musical em praticamente todas elas. É o caso da intensa “Don’t Go Down”, com seus longos períodos instrumentais, da dissonante “Shooting Star” e da balada ruidosa “Strung Out Again”.

Essa sensação de afogamento aparece também em “Twilight”, “The Last Hour” e “Little One”, todas elas gravadas com cara de demo, em ambientações mínimas e bem diferentes dessas outras. Mesmo sem tantos elementos, o vocal fraquejante e os versos confessionais passam ao ouvinte o senso de desesperança que o artista vivia na época. Seu fôlego para cantar pode estar maior em “King’s Crossing” e em “Memory Lane” (que contém o verso que nomeia a obra), mas as letras denunciam sem rodeios o desânimo de conviver com o vício e a depressão.

Mesmo mais de quinze anos depois de seu lançamento, From a Basement on the Hill ainda causa dor no fã de Elliott Smith que se vê ainda lamentando uma carreira interrompida abruptamente. Planejado pelo músico como um álbum duplo durante sua produção, o disco ficou com cara de “carta de suicídio” por construir, mesmo sem querer, uma argumentação que explica a mente de um artista que, mesmo se não tivesse falecido, não sabemos se teria conseguido finalizar o álbum como gostaria, ou se teria precisado interromper a carreira, ainda que temporariamente, para se tratar.

Em tempo: a polícia nunca concluiu se a morte de Elliott foi de fato um suicídio ou um homicídio. Independente de um veredito, From a Basement on the Hill entrou para a história como um testamento da musicalidade refinada e emotiva desenvolvida por um músico tão talentoso quanto angustiado.

(From a Basement on the Hill em uma faixa: “Pretty (Ugly Before)”)

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ARTISTA: Elliott Smith

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.