Resenhas

Elliott Smith – Roman Candle

Quase um acidente de percurso, estreia solo é o primeiro convite ao porão e à mente de Elliott Smith

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Ano: 1994
Selo: Cavity Search
# Faixas: 9
Estilos: Indie Folk
Duração: 30’
Produção: Elliott Smith

 

Seja dita a verdade, Roman Candle é mais uma demo do que um álbum propriamente dito. A estreia de Elliott Smith em sua carreira solo foi quase um acidente de percurso enquanto sua banda, Heatmiser, se desfazia aos poucos durante a produção do que seria seu terceiro e último registro, Mic City Sons (que seria lançado em 1996). As músicas desse debut foram todas registradas em um porão com um simples gravador de quatro canais e um microfone barato. O resultado soa Lo-Fi, bastante cru e quase amador. Ainda assim, não impede que esse seja um dos discos mais cultuados da carreira do cantor, que, à época, costumava dizer que sua voz soava como “Joe Strummer com resfriado”.

Vindo de um background da cena de Rock Alternativo de Portland – a qual, segundo consta no documentário Heaven Adores You (2014), não foi tão atingida pelo furacão Grunge –, Smith incorpora uma linguagem bastante ligada ao Folk para sua obra solo, sendo o violão o dono do show em boa parte das canções, com ocasionais aparições de uma guitarra elétrica e uma gaita. A forma com que as músicas foram gravadas as fazem soar intimistas, captando às vezes até mesmo os dedos do músico raspando nas cordas ao mudar de acorde. Isso e a voz sussurrada do músico contribuem para essa sensação de se estar no mesmo porão ouvindo tudo isso enquanto ele grava – o que faz esse disco se tornar algo a mais na discografia de Elliott.

As ligações com o Folk surgem também nas letras, mas não por se inserirem em uma atmosfera bucólica ou campestre. Smith canta a partir de uma perspectiva urbana, mas seu lado “contador de histórias” é o que também o torna tão Folk e este primeiro disco tão único. Se há crueza na forma com que o Elliott toca seu instrumento, há também na forma com que ele entoa letras sobre violência doméstica (“Roman Candle”), fuga de um relacionamento (“No Name #04”) ou um namorado abusivo que sai de carro à procura da namorada (‘Drive All Over Town’).

O músico é o narrador dessas histórias bastante sombrias, contando-as, entretanto, de um ponto de vista empático. Essas figuras cheias de problemas talvez fossem um reflexo de sua própria cabeça e de seus próprios problemas – angústias que o levariam ao suicídio uma década depois.

(Roman Candle em uma faixa: Roman Candle) 

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ARTISTA: Elliott Smith

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts