Resenhas

Elori Saxl – The Blue of Distance

Disco de estreia de compositora americana alia o digital e o orgânico e cria clima meditativo que passa por memória, afeto e angústias do mundo tecnológico

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Ano: 2021
Selo: Western Vinyl
# Faixas: 7
Estilos: Ambient Music, Experimental
Duração: 39'
Produção: Elori Saxl

Principalmente a partir das décadas de 1980 e 1990, uma corrente da Ambient Music foi responsável por, ao mesmo tempo, ajudar a popularizar o gênero também criar um estereótipo concreto: a New Age. Comumente associado ao estigma da “música de relaxamento”, o gênero abrangia o aspecto etéreo e múltiplas camadas da Ambient Music, porém acrescentava elementos meditativos – desde algo menos explícito como percussões constantes, até sons de cachoeira e passarinhos. Em parte, a caricatura ao redor da New Age vem de um fator comercial, uma vez que surgiram, aos montes, discos feitos para vender cursos de yoga e terapias holísticas. Mesmo assim, as sonoridades construídas nestes “discos calminhos” ainda cumprem bem uma função meditativa e, certamente, a linguagem construída aqui não se encerrou como um gênero passageiro de décadas passadas.

Apesar de sua sonoridade não ser tão marcada pelos elementos típicos da New Age, Elori Saxl é uma artista que colhe as influências do gênero e vai além da ideia de um simples “relaxamento”. Nascida nos Estados Unidos, Elori tem tido um contato forte com a composição musical desde os 12 anos, quando começou a praticar o violino. Seu grande desafio estava na ambição de produzir diferentes tipos de música, um reflexo natural de tudo aquilo que escutava com tão pouca idade. Soma-se a isso o fato de Elori ter crescido rodeada do mundo da internet, acompanhando lançamentos e novas tendências.

Ela já disse em entrevistas que os discos que mais ouvia eram aquelas coletâneas genéricas organizadas por gravadoras, algo como “os 40 maiores sucessos da atualidade” ou “as 10 mais famosas canções vencedoras do Grammy”. Além disso, ela atua como criadora de filmes e trilhas sonoras, influencia evidente em sua forma de compor. Assim, pouco a pouco, Elori começou a entender as direções criativas e a linguagem que definiriam sua obra. Mas, além disso, estes constantes dilúvios de informação e música foram decisivos para que ela pudesse constituir o grande tema de seu disco de estreia: a criação de experiências por meio de “não estar” presencialmente.

The Blue of Distance dá forma a uma série de reflexões relacionadas à contemporaneidade. No texto explicativo do disco, a compositora disserta sobre como diferentes meios de comunicação influenciaram suas canções. Desde tecnologias como o Google Maps, YouTube e a forma como usamos para conhecer um mundo ser necessariamente estar presente, até fotos de suas memórias evocando sentimentos e emoções presentes de épocas passadas. Talvez por isso, aquele elemento meditativo da New Age seja algo tão relevante para descrever a sonoridade de Elori. Cada faixa propõe um ambiente que impulsiona essas reflexões sobre sensações e presença, cada qual levando para diferentes espaços desta discussão. Diferente da New Age tradicional, aqui, as coisas não são calminhas – muito pelo contrário, na verdade. A possibilidade de entrar em contato com estas dinâmicas afetivas e nostálgicas, inevitavelmente traz um pouco da nossa experiência à tona. Portanto, é difícil não se emocionar quando o dilúvio emocional chega.

A discussão de Elori se reflete na forma como ela constrói seu som. As canções carregam um tom de leveza e suspensão, mas a natureza de cada escolha de timbres, instrumentos e arranjos é o que dá cadência e fluidez à narrativa. A faixa de abertura, “Before Blue”, embora breve, introduz suas propostas simbolizando essa relação entre tecnologia e memória a partir da união dos elementos acústicos (clarinete) e digital (sintetizadores). Já “Blue” toma quase 10 minutos para criar sua jornada, quase sempre no mesmo andamento e humor, mas com pontuais interferências – como se fossem as lembranças que vêm aos poucos e aleatoriamente durante nossa vida. “Memory of Blue” é mais orgânica, mas esse aparente aspecto natural se mostra parte de um arranjo de cordas aliado a pads sintetizadores que se juntam e afastam em movimentos ondulatórios. Por fim, “The Blue of Distance” talvez seja a mais introspectiva das composições, principalmente pelos timbres fechados que concentram toda a carga dramática em um ponto só – um momento intenso e sensorial.

The Blue of Distance é meditativo não porque nos relaxa, mas porque nos coloca em contato com o mais natural de nossas vivências. Elori Saxl faz um trabalho fantástico não apenas de juntar elementos de diferentes naturezas, mas de construir uma narrativa universal a partir desta linguagem. Falar sobre temas como memória, afeto, existência e tecnologias é uma maneira de expressar suas angústias e, ao mesmo tempo, de propor algo que funcione para além de um mero entretenimento. É quase com um New Age ainda mais novo, profundo e tocante.

(The Blue Of Distance em uma faixa: “Blue”)

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ARTISTA: Elori Saxl

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.