Resenhas

Eloy Polemico – Aku Aku

Segundo disco do rapper paulistano une referências à cultura pop e filosofia para investigar o papel das máscaras sociais nas relações humanas

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Ano: 2021
Selo: Rancho Montgomer
# Faixas: 13
Estilos: Rap
Duração: 42'
Produção: Eloy Polemico

Muitos dos artistas presentes em nossas playlists favoritas foram descobertos no Soundcloud. Apesar de ter sido ofuscada pelos algoritmos dos serviços de streaming como Spotify e Deezer, a plataforma online sediada em Berlim exerce papel fundamental na carreira de novos artistas, assim como ainda é campo fértil para pesquisadores de música. Em tempos mais áureos do Soundcloud, no longínquo ano de 2013, eu encontrei o artista Sergio Estranho — e por consequência uma música chamada “Aquela do dinheiro”.

Apesar da canção ter sido publicada no perfil do Estranho, a composição na verdade era coletiva: além do próprio Sergio, ThalesMorlockz, eLmandarim e Eloy Polemico assinavam as rimas do trampo, formando o grupo Morlockz (que incluía outros artistas não presentes nesta música). “Aquela do dinheiro” me impactou. Eu tinha encontrado uma joia nas minhas escavações no Soundcloud. Quando o refrão de eLmandarim abre a música e interpola “Saudade da minha terra”, de Chitãozinho & Xororó, eu já tava vendido. “Esse rap tá citando um sertanejo?” Pensei, confuso e maravilhado. “De que me adianta viver na cidade se/ dinheiro manda em tudo a vida passa rapidão?” E entre o refrão, versos muito divertidos, em especial o segundo, de Eloy Polemico: “Meu CPF se mudou pro SPC pois não é só você que tá fadado/ A compras no parcelado/ Creia que Bruce Wayne é ratazana/ Sem Benjamins nem curso na MicroLins ele ia ta bacana”.

Desde “Aquela do dinheiro”, Eloy Polemico está no radar. Em novembro, o artista lançou o seu segundo disco, Aku Aku (2021). A máscara flutuante e icônico personagem de Crash Bandicoot, que dá título ao disco, antecipa o conceito, também presente na bela ilustração da capa: as máscaras sociais, a interação entre os indivíduos e o que decidimos mostrar ou esconder. Por mais que nem todas as músicas partam dessa temática, a maioria possui este núcleo. “Num avatar bem preto, nunca nega um help”, ele rima em “Prólogo”, introdução do projeto. O refrão da música alerta: “tente não se esconder”.

“Faixa Amarela” é a música-chave do projeto. Aqui, a faixa não é a mesma de Zeca Pagodinho, mas mais como as faixas amarelas que definem um limite de aproximação do público de uma obra em um museu. Impulsionado por uma guitarra precisa, Eloy usa a figura da faixa como metáfora para o limite do respeito entre as relações sociais, enquanto investiga suas próprias barreiras. Assim como no museu, esse limite não existe fisicamente, já que a faixa está pintada no chão, mas é uma convenção social que as pessoas decidem por respeitar. Uma voz sampleada diz: “Você tem que constatar o que realmente você é! E sobretudo, escolher dentre aquilo que você não é, quem é realmente você. Encontrar-se entre todas as máscaras”.

Produzido majoritariamente pelo próprio rapper, o disco carrega uma espécie de solidez que também existe na voz de Eloy, seja quando rima, quando canta, ou quando rima cantando. O delivery do MC soa como pés batendo firme em um chão de terra, marcando caminho ao mesmo tempo em que levanta poeira. Sabe aqueles raps bons de ouvir andando na rua? Ele ainda acha tempo para se divertir com o trap de “Only Fans”, com participação de eLmandarim, remontando o antigo Morlockz. Outros convidados como Joe Sujera e RT Mallone chegam bem nas músicas. Em meio a um excesso de participações, Aku Aku mantém um conceito coeso e sólido, ainda que na avalanche de versos alguns soem menos inspirados, como o de Matéria Prima em “Recomeçar”.

Em um post do Instagram, Eloy Polemico destaca o antropólogo Erving Goffman e seus ensaios sobre os rituais sociais, etiquetas e policiamento da autoimagem como fundamentais nas ideias do projeto. “[…] à medida que interagimos, formamos a opinião alheia sobre nós, através do que recebemos como a ‘atuação’ do outro. E temos consciência disso. Por isso, gerenciamos nossa fala, ponderamos nossos gestos e monitoramos nossas reações”, escreve o rapper. Aku Aku cumpre um bom trabalho em unir a filosofia de Goffman a referências da cultura pop e é capaz de despertar aquele quentinho no coração de ouvir um rap nacional sagaz e bem escrito — que nem há oito anos, com “Aquela do dinheiro”.

(Aku Aku em uma faixa: “Faixa Amarela”)

 

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ARTISTA: Eloy Polemico