Elza Soares – Deus É Mulher

Cantora volta com álbum ainda mais poderoso que o anterior

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Ano: 2018
Selo: Deck
# Faixas: 11
Estilos: MPB, Rock Alternativo
Duração: 43:03
Nota: 5.0
Produção: Guilherme Kastrup

Elza soares, 87 anos, atinge a marca de 81 álbuns lançados com este impressionante Deus É Mulher. Contando com a presença dos músicos Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Kiko Dinucci na condução dos instrumentais e arranjos, bem como o produtor Guilherme Castrup, Elza repete o time vencedor do trabalho anterior, A Mulher do Fim do Mundo, lançado há três anos. Com obras de compositores que representam uma renovação efetiva da música brasileira urbana e pensadora, trazendo gente como Tulipa Ruiz, Alice Coutinho, o alem de composições de Froes, Dinucci e Campos, entre outros, o disco é, além de uma continuação natural do antecessor, uma ampliação de seu espectro lírico, uma reafirmação de postura. Além, claro, da manutenção da eficaz argamassa instrumental que fez Elza renascer com autoridade e credibilidade, deixando de ser uma cantora-intérprete de sambas e standards da música brasileira e tornando-se uma espécie de diva-sábia do tempo, uma entidade cotidiana, atemporal e solene.

Depois de ouvir o álbum algumas vezes e tentar – sem conseguir exatamente – dimensionar o tamanho do impacto de suas canções, achei melhor deixar alguns versos das canções falarem por Elza e pelo disco. Antes, porém, um aviso necessário: este é um trabalho que contém verdades capazes de combater o senso comum banalizado/relativizado. É uma bomba antirreacionária, uma peça de luta com poder de inflamar as pessoas contra uma realidade cada vez mais opressora, que permeia os campos da política, da religião, da educação e da cultura/sociedade. Em tempos como os nossos, torna-se mais que necessário.

“O meu país é meu lugar … de fala. O nosso país é nosso lugar … de fala” – O Que Se Cala.

“Exu no recreio, não é Xou da Xuxa, Exu nas escolas, retomar de volta, aldeia roubada de um deus iorubano” – Exu Nas Escolas

“Misturo sólidos com os meus líquidos. Eu não obedeço porque sou molhada” – Banho.

“Eu quero dar pra você, mas eu não quero dizer, você precisa saber… ler” – Eu Quero Comer Você.

“Digo sim pra quem diz não” – Hienas Na TV.

“Clareza o vento passando, clareza a luz na janela, clareza um pouco de música, clareza a sombra da morte” – Clareza.

“Ora, cara, não me venha com esse papo sobre a natureza. Cada um inventa a natureza que melhor lhe caia” – Um Olho Aberto.

“O amor é um deus que não cabe na religião” – Credo.

“O castigo que serve só para vender o perdão” – Credo.

“A mulher dentro de cada um não quer mais silêncio. A mulher de dentro de casa fugiu do seu texto” – Dentro de Cada Um.

“A mulher vai sair de dentro de cada um” – Dentro de Cada Um.

“Deus é mãe de todas as ciências femininas. Pegar carona nesse seu amor divino, transforma qualquer homem em menino” – Deus Há de Ser.

Não tenho recordação de um trabalho com tanto poder nos últimos anos. O único que chega perto é, justamente, o disco anterior de Elza. Em muitos aspectos, a cantora carioca, tornou-se uma tradução de Brasil que precisa ser (re)conhecida por mais e mais gente, que parece tomada por uma forma maligna de amnésia. Um álbum político e incendiário.

(Deus É Mulher em uma música: Credo)

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BOM PARA QUEM OUVE: Letrux, Karina Buhr, Kiko Dinucci
ARTISTA: Elza Soares
MARCADORES: MPB, Ouça, Rock Alternativo

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.