Resenhas

Erika De Casier – Sensational

Segundo disco da cantora retoma rota nostálgica pelo R&B do fim dos anos 1990, com o propósito de ressignificar experiências e sonoridades

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Ano: 2021
Selo: 4AD
# Faixas: 13
Estilos: R&B, Pop
Duração: 41'
Produção: Erika e Casier e Natal Zaks

A nostalgia é uma ferramenta de composição extremamente útil para alguns artistas. Sua eficácia não está somente na inspiração em sons e timbres de décadas passadas, mas como em todos estes elementos brincam com memórias e evocam cenas muito específicas, tanto na mente do compositor quanto do ouvinte. É um recurso quase sinestésico, em que diferentes áreas de nossa percepção estão em jogo. Por trazer tantas dimensões ao mesmo tempo, seu poder de cativar o público é inegável, não faltando exemplos que comprovem isso.

Seja no recente ressurgimento da música Disco dentro do âmbito Pop, ou na escolha de timbres permeados por um filtro VHS no Bedroom Pop, o fato é que misturar sonoridades com memórias afetivas é sempre um caminho direto para o coração de um ouvinte. Entretanto, a nostalgia é uma espécie de edição mental dos melhores momentos de uma respectiva década, afinal, ninguém é nostálgico de um tempo que odiava. Mas, para a cantora, compositora e produtora Erika de Casier, a nostalgia parece funcionar de uma outra forma e, em seu novo disco, fica evidente como a matéria-prima de sua composição não são apenas os momentos bons do passado.

Erika é uma das artistas atuais que mais entendem o poder da nostalgia enquanto recurso expressivo. Sua popularidade vem de seu aclamado disco de estreia Essentials (2019) e a forma como trabalhou o R&B romântico da virada dos anos 1990 para os 2000. Apoiando-se em referências como Destiny’s Child, Aaliyah e Janet Jackson, a artista traz uma sintonia minuciosa com a linguagem típica das canções desta época – desde os timbres escolhidos nas baterias até os sons que emulam violões, porém reproduzidos em módulos que dão um ar digital bem característico.

É uma sonoridade toda baseada no conceito de como o futuro seria para as pessoas que viviam nos anos 2000, quando jurávamos que todos os quartos teriam paredes de metal e as tecnologias estariam em painéis holográficos. Mas em Sensational, seu segundo disco e o primeiro assinado pelo selo 4AD, as fantasias ganham um papel muito menor e a nostalgia de Erika serve a uma função mais ativa, a de problematizar certas coisas neste passado sob o pedestal.

Em seu novo registro, Erika ainda se apoia nas sonoridades típicas do R&B como elemento fundamental. O que muda aqui é a forma como ela utiliza este escapismo sonoro a fim de revisitar certos estereótipos da época e que ainda estão presentes quase três décadas depois. Aquele amor romântico e idealizado das canções de Ashanti e Monica é, por exemplo, motivo de deboche por parte de Erika. A ostentação financeira como atrativo sexual é também totalmente ironizada. É como se a artista revisitasse os estereótipos das letras desta época e os desconstruísse para além daquela nostalgia que nos impede de ver o lado ruim das coisas.

Erika revisita relacionamentos abusivos que eram taxados como românticos, cantadas bregas e inoportunas disfarçadas de atitudes desejáveis em homens e a ideia de que as mulheres deveriam colocar o aspecto profissional em segundo plano para priorizar o romance. A nostalgia não vem apenas como escapismo, mas como possibilidade de ressignificar vivências do passado e, ironicamente, usando os mesmos elementos sonoros que sustentavam estas ideias datadas nos anos 1990/2000.

“Drama” já nos apresenta às batidas típicas do R&B noventista, porém desconstruindo aquela personagem que envia mensagens a toda hora pedindo para voltar – Erika não quer esse drama para a sua vida. “Make My Day” traz uma vibe mais relaxante, com toques de Sade, e satiriza as cantadas típicas e tidas como românticas naquela década (algumas das quais sobrevivem até hoje). “No Butterflies, No Nothing” é uma faixa Ambient com toques percussivos servindo como pano de fundo, tudo isso para fugir das borboletas do estômago. Mais sutil, “Better Than That” aposta em timbres mais suaves e etéreos para sustentar as múltiplas vozes de Erika, que funcionam tanto com a melodia principal como com um pad instrumental. “Busy” se afasta um pouco do R&B para trazer uma referência mais pautada em arranjos do UK Garage, mais acelerados, mas igualmente nostálgicos. Por fim, “Call Me Anytime” encerra o saudosismo, continuando com o beat acelerado, mas nunca sacrificando a suavidade característica de Erika, seja nos vocais ou nos sintetizadores.

Sensational traduz mais uma vez a nostalgia primorosa de Erika de Casier, porém, desta vez, a serviço de um olhar ativo perante o passado. Aqui, relembrar sonoridades e eventos não é um movimento narcísico e hedonista – mas necessário para continuar seguindo em frente. Erika nos apresenta, assim, uma nostalgia que não serve como escape e, sim, como enfrentamento e ressignificação.

(Sensational em uma faixa: “Busy”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.