Resenhas

Esperanza Spalding – Emily’s D+Evolution

Novo álbum é um convite para conhecer a música negra urbana recente

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Ano: 2016
Selo: Concord
# Faixas: 12
Estilos: Funk, Jazz Funk, Jazz
Duração: 45:44
Nota: 4.5
Produção: Tony Visconti, Esperanza Spalding

Se há uma artista extremamente talentosa em atividade na música mundial hoje, ela se chama Esperanza Spalding. Aos 32 anos incompletos, ela é uma força da natureza, capaz de proporcionar cruzamentos perfeitos entre a tradição da música americana e o presente/futuro desta forma de expressão, sempre pela via do Jazz urbano, não só como estilo musical, mas como uma forma de entender e interagir com o mundo que a cerca. Este novo álbum é o ápice de sua carreira, uma verdadeira obra-prima de amor e sobrevivência em relação à música, com acenos óbvios a uma infância/adolescência calcada na companhia proporcionada por esta, seja via rádio, via LP’s/CD’s/Fitas K7, seja nas primeiras tentativas de aprendizado de um instrumento ou de simplesmente pensar ser capaz de criar, fazer, cantar, tocar, enfim, confundir-se com ela. A obra de Esperanza é toda sobre isso, ela tem a manha de ser autobiográfica sem ser pedante, mostrando que a história de seu amor com a música pode ser a de quase todos nós, independente de cidade e cor da pele.

Ao longo de seus álbuns, notamos um caminho de volta do Jazz mais tradicional em direção a algo meio amorfo, mas muito próximo do que seria uma evolução do estilo nos nossos dias, mais ou menos o que o Fusion foi nos anos 1970, quando incorporou guitarras elétricas, pianos elétricos e uma série de abordagens do Rock. Se alguém procurar manter o Jazz atual, precisa levar em conta Hip Hop, Funk, música Eletrônica, além da noção de que as cidades de hoje são muito maiores e abrigam muito mais pessoas diferentes de nós do que costumavam fazer há 30, 40 anos. Esperanza sabe disso e procura partir do ponto em que Joni Mitchell, então em sua própria fase de aproximação com o Jazz em meados dos anos 1970, deixou. A cantora e compositora canadense produziu música belíssima e angulosa nesta época, que permanece ainda não totalmente apreciada, talvez por ser algo muito à frente daquele tempo. E era. Esperanza recupera essa via de acesso e mistura com suas próprias impressões, dando origem a um trabalho que já está na lista pessoal de melhores de 2016 desde articulista.

A princípio, Emily’s D+Evolution é um disco conceitual sobre essa vivência de Spalding com a música ao longo de sua adolescência, partindo desde o que ela ouvia no rádio, passando pelos discos que comprou, trocou e apreciou com amigos, chegando até o tempo em que decidiu tocar algum instrumento, algo que começou bem cedo, aos 15 anos. Partindo desta lógica e misturando tudo com o que ela aprendeu neste tempo, sua música é um caleidoscópio de influências, partindo de Joni Mitchell, cruzando com Prince no meio do caminho, desembocando no R&B dos anos 1990, chegando ao que Erykah Badu é capaz de fazer hoje. O toque que a distingue dos outros é justamente sua aproximação com o Jazz. O que sai das caixas de som é uma música personalíssima, extremamente harmônica, cheia de nuances e surpresas, coisa admirável. Nada aqui é previsível.

Destaques neste diadema sonoro? A belezura que chega logo de cara, com Good Lava, abrindo o percurso musical com vocais aventurosos em meio a uma maçaroca guitarreira erguida sobre bateria nervosa e baixo – tocado por ela – sinuoso. Judas, com mais levada destaca de baixo, tem clima de balada setentista de Jazz Soul, com sofisticação de vocais de apoio mixados no inconsciente do ouvinte e andamento que não segue lógica aplicada ou linearmente possível. One, verdadeiro milagre de arranjo, é a conexão entre os vocais de Joni Mitchell e de cantoras Soul que o mundo nem lembra mais, como Minnie Riperton, que sabia usar registros agudos a favor da beleza e doçura dos arranjos. o gentil trocadilho no título de Ebony And Ivy anuncia uma canção com letra recitada sobre o vazio total de instrumentos a princípio, mas que evolui para outra surpresa jazzística melódica e bela. Elevate Or Operate, com refrão belíssimo, floreios de piano e bateria onipresente. Fechando os trabalhos, lá pelo fim do disco, o “salve” para os refrãos Hip Hop de outros tempos, em Funk The Fear, que engata num fraseado invocado de guitarra e baixo, que poderiam estar em discos mais arejados do Anão Púrpura de Minneapolis.

Não perca tempo e ouça logo este Emily’s D+Evolution. Tudo o que você precisa saber para se aventurar nos mares tépidos e familiares da boa música negra americana está aqui. E há uma senhora guia pronta para te levar adiante nessa viagem. Não hesite. Disco sensacional.

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BOM PARA QUEM OUVE: Jill Scott, Joni Mitchell, Erykah Badu
MARCADORES: Funk, Jazz, Jazz Funk, Ouça

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.