Resenhas

Everything Everything – Raw Data Feel

Sexto disco do grupo britânico utiliza inteligência artificial na composição das letras e levanta interessante discussão sobre a relação entre tecnologia e arte

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Ano: 2022
Selo: Infinity Industries
# Faixas: 14
Estilos: Indie Pop, Synthpop
Duração: 54'
Produção: Kaines, Tom A.D

Dentre os vários debates que permeiam o universo da música, o embate entre tecnologia vs. arte é um dos que levantam grandes polêmicas. Uma questão específica dentro deste campo levanta o quanto o uso da tecnologia impulsiona os estímulos criativos, ao mesmo tempo em que traz um aspecto mecânico em sacrifica de uma suposta autenticidade artística. O uso do autotune nas canções de T-Pain, por exemplo, fizeram o cantor Usher comentar que isto era “a morte da música” (vale a pena ver a série This Is Pop, na Netflix para se aprofundar no caso). Até mesmo anos antes disso, a tecnologia MIDI (sinais elétricos que, quando convertidos por um computador, reproduzem melodias e arranjos complexos) era vista com suspeita por produtores dos anos 1980 – e até mesmo alguns que ainda insistem que o método analógico é superior ao digital.

Mesmo com tantos temas que poderiam render assunto para horas e horas de discussão, o rápido avanço da tecnologia faz com que esse debate se reacenda de diferentes formas a cada ano que se passa. Em resumo, se há um aspecto da arte cuja construção pode ser substituída por uma tecnologia, sempre haverá uma comparação em discussão. Agora, quem traz a nova pauta é a banda indie britânica Everything Everything, que faz uso da inteligência artificial para construir uma parte da música que é essencial e extremamente pessoal: as letras.

A tecnologia acompanha o processo criativo da banda britânica desde seu início. Partindo de uma sonoridade clássica do indie dos anos 2000, o conjunto nunca negou seu interesse pela tecnologia, principalmente durante o processo de composição de sua obra. Em seu terceiro disco, Get To Heaven, por exemplo, encontramos uma justaposição de elementos do indie e da música eletrônica em doses muito precisas – perfeito para compreender como a banda não é puristas e recusa qualquer influência externa. Aos poucos, Everything Everything se tornou uma referência do indie pop britânico durante a década de 2010, tanto pela ambição em propor novos caminhos para o gênero, mas também pelo experimentalismo preciso na produção de seus trabalhos. No clipe de “Photoshop Handsome”, a banda já utilizava a inteligência artificial a seu favor, criando filtros e texturas verdadeiramente únicas. Agora, essa relação de amor e proximidade à tecnologia toma um novo e ousado passo dentro da sonoridade da banda, na medida em que eles trazem algoritmos e inteligências artificiais para as letras de seu novo disco Raw Data Feel

No sexto trabalho do grupo, há um confronto interessante entre a ideia da emoção em oposição ao artificial. Para isso, o vocalista Jonathan Higgs colaborou junto do pesquisador e programador Mark Hanslip para criar um programa em que seriam colocados diversos textos e, após o processamento dos dados, uma letra de música seria criada. Entretanto, o diferencial e a razão pela qual o disco é tão interessante, esta justamente na natureza dos textos que serviram de matéria prima para as letras. Higgs comenta na entrevista para o site do Grammy que ele procurou os textos que menos remetessem à ideia de uma letra de música – excertos desprovidos de emoção ou qualquer intenção artística. Os termos de responsabilidade de uso do LinkedIn, textos filosóficos de Confúcio e trechos de discussões retirados do polêmico fórum 4chan foram alguns dos textos que serviram de “inspiração” para a inteligência artificial gerar as letras do disco. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, não é todo o disco que é feito a partir dessa tecnologia. Na mesma entrevista, Higgs comenta que apenas uma pequena porcentagem dessas letras foram de fato utilizadas e que, se ele revelasse quais trechos específicos foram compostos pelo computador, isso eliminaria todo o propósito criativo no disco.

Esta constante comparação entre tecnologia e emoção fica evidente nos primeiros segundos do disco, quando a faixa “Teletype” martela o bumbo bate estaca constante para pintar uma característica dançante que permanece até o final do trabalho. O single “Bad Friday” poderia ser facilmente uma composição para uma diva pop, tamanha a fidelidade à estrutura de canção e os timbres eletrônicos que puxam a nostalgia para o lado do electropop dos anos 2010. “Leviathan” diminui o andamento do disco, mas traz um comparativo claro na justaposição entre a bateria e guitarras acústicas, além de sintetizadores precisos e pontuais que dão um verniz final à música. “HEX” é mais intensa, não economizando na distorção e propondo uma ambientação perfeita para um filme experimental de vampiros nos anos 1980. O disco encerra com “Software Greatman”, faixa mais longa do trabalho e, possivelmente, a que mais deixa claro para o ouvinte a dialética no conceito do disco.

Everything Everything traz um trabalho preocupado em discutir a relação entre tecnologia e emoção e, para isso, a sonoridade do grupo sobre uma mudança drástica. No lugar daquele indie no início da carreira o repertório se baseia em vertentes mais pop, ainda que se mantenham melodias contagiantes e arranjos efervescentes. E Raw Data Feel parece mostrar que, especialmente dentro do pop, as irrefreáveis possibilidades tecnológicas e o aspecto mais emocional de uma composição podem coexistir em uma relação tão contraditória quanto complementar.

(Raw Data Feel em uma faixa: “Bad Friday”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.