Resenhas

Fabio Pinczowski – Habilidades do Deserto

Músico propõe jornada imaginária ao norte da África e absorve diferentes influências em exercício contemplativo

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Ano: 2020
Selo: Independente
# Faixas: 7
Estilos: Instrumental
Duração: 29'
Produção: Fabio Pinczowski

 

Logo no início do filme O Céu que nos Protege (1990), de Bernardo Bertolucci, um trio de viajantes americanos chega à Argélia. O ano é 1947 e eles pretendem conhecer a região, viajando por todo o norte da África. “Devemos ser os primeiros turistas desde o fim da Guerra”, um deles diz, ao que um outro responde: “nós não somos turistas, somos viajantes”. A distinção, ele explica, diz respeito àquelas pessoas que estão sempre pensando em voltar para casa, diferentemente daquelas que, ao contrário, nem sabem se um dia voltarão.

O filme apresenta uma África setentrional através de imagens texturizadas e cores saturadas. A belíssima fotografia de Vittorio Storaro preenche os sentidos com paisagens arenosas de uma tonalidade rosa e laranja. Assim, a história de O Céu que nos Protege parece uma de contemplação. No entanto, avançando pelo deserto, enfrentando suas agruras e provando de suas delícias, as personagens nos ensinam que a viagem é sempre o símbolo de um outro tipo de jornada: uma interior, de autoconhecimento.

Fabio Pinczowski, em seu primeiro álbum solo, intitulado Habilidades do Deserto, propõe a sua jornada imaginária ao norte da África. Inspirado por algumas fotografias tiradas pelo seu pai nos anos 1970 em Marrocos, o músico constrói ao longo de sete faixas uma narrativa instrumental que conduz o ouvinte por uma viagem cinematográfica e imaginária.

Apesar deste ser seu primeiro trabalho solo, que debuta o nome próprio impresso na capa, Pinczowski já soma 15 anos como produtor musical. É também ele quem conduz, ao lado de Mauro Motoki, o programa Clubversão, veiculado pela HBO, no qual propõe – a artistas do calibre de Milton Nascimento ou Gilberto Gil – novas roupagens para clássicos da música. Esse caminho como produtor, consequência lógica de uma trajetória como músico integrante de bandas instrumentais, resulta afinal nas experiências oferecidas em Habilidades do Deserto.

Músicas como “Couro das Almas” apresentam guitarras arenosas, de sonoridade ampla e melancólica. Outras, como “Os Salões de Ópio”, deliberam por harmonias improváveis, avançando por meio de caminhos imprevistos e sinuosos. Há ainda aquelas, como “Terra Vermelha”, cujos timbres granulados e metálicos de sintetizador postulam algo de contemporâneo. Todas elas, no entanto, sugerem uma dança circular, meditativa e interiorizada.

De um lado, é possível evocar nomes contemporâneos como Tinariwen e Mdou Moctar – projetos nos quais a guitarra ocupa um papel central e são encabeçadas por tuaregues do Mali e do Níger, respectivamente. De outro, clássicos como Krishnanda (1968), de Pedro Sorongo, ou Robson Jorge & Lincoln Olivetti (1982) acenam para a tradição de “discos de produtor” no Brasil. Estes, se fazem música vinda de grandes centros urbanos, soam também como uma tentativa de escapar a eles através do som. No meio destes dois opostos, a música de Pinczowski soa cosmopolita, absorve diferentes influências – conscientes ou não – e as circunscreve numa grande conexão transatlântica contemporânea.

Ouvimos histórias sobre o deserto desde sempre. Esta geografia está unida com a nossa civilização. Das parábolas espirituais, que nos ensinaram a olhar para o deserto como um lugar de superação de dificuldades, até o imaginário do cinema ocidental, que o coloca como um lugar de transição – “nós sempre teremos Paris”, diz Humphrey Bogart, em Casablanca (1942), enquanto tenta fugir para a América via Marrocos –, o deserto é, paradoxalmente, um terreno muito fértil enquanto metáfora. Esse lugar, que traga o nosso olhar e nossa imaginação, revela afinal uma verdade fundamental: o ato de contemplar é também uma espécie de transformação.

(Habilidades do Deserto em uma faixa: “Couro das Almas”)

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.