Resenhas

Fábrica – Grão

Banda carioca adquire cara de projeto solo em seu sensível segundo álbum, que assumidamente mistura sonoridades de Edu Lobo e Grizzly Bear

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Ano: 2013
Selo: Independente
# Faixas: 11
Estilos: MPB, Indie, Indie Folk
Duração: 35'
Nota: 4.0
Produção: Emygdio e Sávio de Queiroz

Grão chega como um álbum de perceptível honestidade. Seja na ênfase que Emygdio Costa (o nome por trás do projeto Fábrica) dá ao ressaltar suas influências de Grizzly Bear e Edu Lobo ou (principalmente) no clima introspectivo que percorre toda a obra com sua agonia dedilhada, o que faz o disco todo gemer em belas harmonias.

O apecto sonoro impressiona, principalmente a quem ouviu o disco homônimo anterior, um agradável registro aos moldes de bandas brasileiras influenciadas por Los Hermanos. Desta vez, o circo se fecha ao redor da figura de Emygdio, a mente por trás da Fábrica e co-produtor do álbum junto a Sávio de Queiroz. É uma grande mudança de ares, principalmente pelo aspecto de banda ganhar a cara de um projeto “solo, mas bem acompanhado” pelos músicos de antes.

Contudo, resumir as qualidades de Grão a comparações com outro disco ou bandas, ou ainda fazer um trabalho de distinguir estilos e referências, seria um exercício no mínimo reducionista. Isolar esses elementos das letras e da interpretação de Emygdio, seja ao violão ou para seus versos, é de uma grande injustiça.

O que encanta é aquela tal honestidade, um fator humano que preenche todas as músicas com muita alma nos “parapapas” que acompanham melodias. Quando há letra (caso da maioria das músicas), elas passam a sensação de palavras extraídas de diálogos internos que resultaram ou em frases conclusivas (que chegam a parecer conselhos poetizados de alguém mais velho) ou em ainda mais perguntas, tanto é que cinco das nove faixas com letras possuem pontos de interrogação por sua extensão.

Não é difícil se identificar com a sensação deslumbrada de existir presente em Mais Um, ou com o romantismo de Verão e a dor da despedida em Partida e seus versos “Saiba que a tua esperança/Fere mais do que a lembrança/do que um dia foi”. Melhor ainda é ter isso narrado em uma grande sinergia com os instrumentos. Vale ficar atento ainda ao dueto com Momo em Infante, faixa que traz ainda um sax tenor hipnotizante e doloroso para preparar o terreno para seu fechamento com “E quem vai comprar essa nossa verdade?”.

Escutar Grão pode não ser uma experiência fácil. Isso vale pro ouvido não acostumado a canções de estruturas livres ou com as combinações tão contemporâneas de timbres elétricos invadindo os acústicos, por exemplo, mas vale ainda para quem se identificar com as músicas. Nesse disco, os dedos, os mesmos que encantam com o dedilhar das cordas, cutucam feridas em tom muito pessoal.

Mas é aí que a dor se faz boa, quando ela é consciente e honesta como o eu-lírico das faixas. E o álbum vem como uma grande catarse, que se contorce em desabafos estupefatos sob uma plástica concretista e criativa. E quando a beleza se mostra em meio a tudo isso, você entende por que ele merece sua atenção.

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BOM PARA QUEM OUVE: Cícero, Grizzly Bear, Fleet Foxes
ARTISTA: Fábrica
MARCADORES: Indie, Indie Folk, MPB, Ouça

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.