Resenhas

Faye Webster – I Know I’m Funny Haha

Caprichado na estética “Pop de banda”, quarto disco encanta com arranjos minuciosos que se harmonizam perfeitamente à personalidade da cantora americana

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Ano: 2021
Selo: Secretly Canadian
# Faixas: 11
Estilos: Indie, Alternativo
Duração: 41'
Produção: Faye Webster e Drew Vandenberg

Dois anos separam Atlanta Millionaires Club (2019) e o recente I Know I’m Funny Haha, mas o espaço entre a maturidade musical de um e outro dificilmente consegue ser medido. Neste seu quarto álbum, Faye Webster atingiu um novo patamar em sua obra ao desenvolver aquelas qualidades que já observamos, e aprovamos, ao longo de sua discografia. Nada aqui é muito “novo”, mas tudo é consideravelmente melhor.

Tem a ver com o nível de qualidade das composições e dos arranjos, mas é mais ainda uma questão de como eles sempre estão arquitetados para deixarem a forte identidade do vocal da cantora em primeiro plano – o que, como em suas obras anteriores, revela que o principal atrativo do disco é a forte personalidade em sua interpretação. Faye é a personificação da vulnerabilidade, dona de uma voz frágil com a quantidade certa de ar para não ser “fraca”, capaz de carregar sensibilidade e bom humor em um mesmo verso. Ou seja, fator humano altíssimo.

Isso facilita nossa aproximação com suas narrativas, que trazem histórias de romances encerrados, ressigificações necessárias de paixões antigas e projeções de relacionamentos possíveis. É o grau de melancolia certo para baladas envolventes, que trazem versos certeiros no equilíbrio de todos esses afetos (como “you make me wanna cry in a good way”, de “In a Good Way, ou “if you’re not around/I’m missing a whole half of me”, em “Half of Me”), interpretados pela voz ideal.

E ela, é claro, não vem sozinha. Todo I Know I’m Funny Haha foi gravado por uma banda bastante enxuta, de uns quatro ou cinco timbres por faixa, que entrega um som encorpado, mas nunca exagerado em seu volume. Caprichado na estética “Pop de banda”, o disco impressiona com o nível de detalhamento dos arranjos, mesmo em uma ambientação tão simples. Das teclas aos violões em pequenos solos, quase sempre ao final de cada faixa, o bom gosto da obra está também em suas sutilezas.

Isso gera a inevitabilidade de adjetivos que podem parecer exagerados antes do play, mas que fazem pleno sentido para quem escuta o álbum. Faz sentido, por exemplo, classificar “A Dream with a Baseball Player” como “uma faixa que qualquer um gostaria”, enaltecer a parceria com a japonesa mei ehara em “Overslept” como “o dueto cantado baixinho mais carismático do ano”, ou ainda redigir a aparente ousadia de chamar “Sometimes” de “uma balada perfeita” – o tipo de coisa que, imagino, faria Faye corar. A artista, no entanto, não nos dá outra opção a não ser o pleno maravilhamento com uma obra cheia de pontos altos, dentre eles o talento e a musicalidade tão bem moldados ao redor de sua própria personalidade.

(I Know I’m Funny Haha em uma faixa: “In a Good Way”)

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ARTISTA: Faye Webster

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.