Em Assaltos e Batidas, FBC finca os dois pés novamente no rap e, vale dizer, está mais afiado do que nunca em suas rimas. Depois de um tempo experimentando com funk, soul e jazz (em projetos que, da mesma forma, expandiram a temática de suas letras), o rapper mineiro retorna energicamente às bases de sua carreira, rimando em sonoridades do hip-hop, permeadas por uma atmosfera dos anos 1990. São beats (criados pela parceria com produtores como Coyote Beatz, Pepito, DJ Cost e Nathan Morais) que bebem de fontes como Racionais MC’s, Public Enemy, N.W.A., Cypress Hill, num misto entre boom bap e jazz, marcado pelo ótimo uso de samples e scratches.
O substrato para a nova aventura parece também se voltar às suas raízes. FBC explora seus rizomas já na primeira canção, “Cabana Terminal”, em que fala sobre o tráfico de drogas nesse ponto da Zona Oeste de Belo Horizonte. O mesmo acontece na derradeira “A Cosmologia Corporativista do Senhor Arthur Jansen”, que fecha o registro denunciando disparidade de renda entre bairros da cidade. A geografia também dá as caras em “Você Pra Mim É Lucro”, em que parafraseia a canção do BaianaSystem, para atacar não só a gentrificação dos espaços citadinos, como a lógica produtiva do capitalismo.
Assaltos e Batidas é um disco profundamente político e que faz questão de deixar tudo muito explícito. São letras combativas que lidam com temas como violência policial, desigualdade de renda, exploração do trabalhador e alienação. Faixas como “Quem Sabe Onde Está Jimmy Hoffa?” brincam ao contrapor sindicalismo e crime organizado como uma metáfora à precarização do trabalho; já em “A Voz da Revolução”, ele faz um chamamento público a uma revolução e traz trechos de uma transmissão clandestina de Carlos Marighella, em 1969, veiculada pela Rádio Libertadora.
O contexto político fica ainda mais claro com samples emblemáticos de “Capítulo 4, Versículo 3” (dos Racionais MC’s) em “Me Diga Quem Ganha”, ou ainda o uso de discursos de filmes como Rede de Intrigas (1976) e Os 12 Macacos (1995) – o que incrementa também para o aspecto cinematográfico da obra. O álbum, inclusive, vem acompanhado de um curta-metragem, dirigido por Renan 1RG, que amplia a narrativa através de personagens em carne e osso. Assaltos e Batidas se constrói como uma obra completa: musical, visual e política. E FBC não apenas homenageia o passado do rap, mas o atualiza com urgência e personalidade
(Assaltos e Batidas em uma faixa: “A Voz Da Revolução”)
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