Resenhas

FBC & VHOOR – BAILE

Em caprichosa reelaboração do Miami Bass, FBC & VHOOR pintam mosaico narrativo que evidencia a experiência mágica do baile funk – um local de observação das vicissitudes da vida na periferia e onde novas visões de mundo são produzidas coletivamente

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Ano: 2021
# Faixas: 10
Estilos: Funk, Miami Bass
Duração: 27'
Produção: VHOOR

“Se a semana foi mal, se o dia foi ruim, esquece tudo e vem assim na pista do baile”: o refrão de “Quando o DJ Toca”, cantado por FBC com participação da cantora Uana, evoca o baile funk como uma válvula de escape da tensão social. Ao longo de suas 10 faixas, BAILE, o novo álbum da parceria entre o rapper mineiro e o beatmaker VHOOR aprofunda esse olhar e vai compondo um retrato colorido e multifacetado do baile funk como uma complexa organização social, sônica e histórica de resistência — e diversão, sobretudo — do povo negro e das quebradas do Brasil. A partir de uma caprichosa reelaboração das sonoridades oitentistas do Miami Bass, a dupla apresenta um mosaico de personagens, histórias e alegorias que acendem um vasto leque de tópicos, da solteirice à covardia da violência policial.

BAILE é um álbum com um arco narrativo definido, como sugere o subtítulo “Uma ópera em Miami”. Acompanhamos o personagem do disco indo ao baile para curtir, mandar o passinho, apaixonar-se e ser trocado por outro, até o trágico desfecho quando o seu bairro é invadido por milicianos. Nesse percurso, as emoções fazem bruscamente dos lamentos de uma separação precoce (“não era amor, eram as suas projeções em mim”, canta suavemente Mariana Cavanellas no refrão de “Não Dá pra Explicar”) aos gritos de revolta e desamparo contra a violência (“a polícia covarde atirou na minha filha”, exclama FBC em “Polícia Covarde”).

A sensibilidade de FBC — e sua própria experiência, afinal acompanha baile funk desde a pré-adolescência — o levou a construir um álbum em que o baile é mais do que um simples tema e torna-se um local de observação das vicissitudes da vida na periferia, refletindo amplamente sobre essa festa como uma experiência mágica, deslocada da repetição da rotina, e ao mesmo tempo real e concreta. Como aponta o sociólogo Boaventura de Souza Santos, nos grupos subalternizados, festas, carnaval, rituais, refeições fartas e prazer sexual são formas relativamente autônomas de apropriação do mundo. “São representações de um mundo como sendo seu e, por isso, representações de um mundo suscetível de mudança no sentido de se eliminarem as relações de dominação e as privações e sofrimento injusto que provocam”, escreve o sociólogo português. Para FBC, o baile é algo a mais, como um ecossistema vivo onde novas visões de mundo são produzidas coletivamente.

Em “De Kenner”, hit instantâneo lançado ainda no fim de 2020, as recombinações de roupas e apropriações criativas do universo fashion são o método para consolidação de um estilo expressivo único. Uma estética periférica que indica um modo próprio de habitar o mundo capitalista das marcas ao inventar, nas suas frestas, o próprio estilo, driblando os preceitos impostos do “bom gosto” e da etiqueta: camisa do Messi, Cyclone, bigodin finin, corrente e lupa Juliet da mesma cor para combinar com o chinelo Kenner. “A cara de tralha que elas gosta”, como descreveu o funkeiro mineiro MC Anjin. “Delírios”, por sua vez, mostra como a intensidade da experiência musical do baile amplifica os sentimentos e sentidos ao ponto de fazer o instante tornar-se eterno. A pista torna-se a própria vida, ao ponto de fazer uma paixonite parecer um amor profundo: “Eu faço tudo pelo nosso amor/ Que amor? Eu devo estar ficando louco, isso são só delírios”.

Ao mesmo tempo, a vida continua e a violência do lado de fora do baile está sempre à espreita, como ouvimos nas sirenes de “Polícia Covarde” e na tensão prestes a explodir em “Eu Sou o Crime”. Por isso, músicas como “Melô do Vacilão” (Canalha, deixou pai de família ir em cana/ Esse não vive uma semana)  e “Vem Pro Baile (“Ensina suas cria que a polícia tá na rua pra matar ou pra prender”) discorrem sobre os métodos de sobrevivência e os códigos de conduta que garantem o bom proceder na favela. Na dinâmica do baile, sobrevivência e festa, poder e diversão, política e sexualidade são instâncias indissociáveis. Esse é o emaranhado que está no cerne do álbum.

A metamorfose é uma ação característica na carreira de FBC. Desde o início de sua carreira solo, o rapper passou pelo Trap, pelo Drill e apresenta agora um trabalho dedicado exclusivamente ao Miami Bass, Electro e Freestyle, gêneros que deram as bases iniciais do Rap e do Funk no Brasil. Nesse resgate histórico, Baile posiciona e reacende Belo Horizonte na memória do Funk e do Rap nacional. Embora o local de nascimento do Funk seja comumente atribuído ao Rio de Janeiro, MCs, DJs e dançarinos da capital mineira, mesmo distante das gravadoras multinacionais, movimentam uma cena consistente de Soul Music (nos anos 70 e 80) e de Rap e Funk (nos 1980 e 1990) — o Baile da Vilarinho, por exemplo, foi criado em 1982 e continuava na ativa até o início da pandemia; FBC frequentava as festas e a família de VHOOR trabalhava em frente ao local. Ao citar uma lista de favelas, bailes e vidas e mortes anônimas de pessoas destacadas apenas no microcosmo do baile, FBC recria a narrativa oficial do Funk — e, por extensão, da cultura brasileira — conferindo valor àquilo que era constantemente ausente, apagado ou silenciado.

Apesar do resgate dessa musicalidade, FBC e VHOOR trabalham sem fetiches retrô ou nostalgia. BAILE é um álbum que remonta o passado com um olhar propositivo para o futuro, inclusive do ponto de vista musical. Com sutileza e precisão, VHOOR manipula elementos sonoros que imprimem um ar renovado aos padrões altamente codificados do Miami. Em “Rap da UFFÉ”, por exemplo, o grave ganha peso e uma textura distorcida que dialoga com o Trap atual. Em “Delírios”, sons de sinos adornam a candura do refrão romântico. Já “De Kenner” é envolta em finos sintetizadores sombrios que dão uma outra entonação ao clássico som de Miami. Repensando e reivindicando a história, BAILE é um trabalho que mostra como FBC e VHOOR podem atuar como arquivistas do futuro.

(BAILE em uma faixa: “Se Tá Solteira”)

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ARTISTA: FBC