Resenhas

FBC & VHOOR – Outro Rolê

Com produção afiada do conterrâneo VHOOR, mais recente EP do rapper mineiro se equilibra entre o Drill e a versatilidade dos atabaques e aponta novas possibilidades criativas

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Ano: 2021
Selo: WRM
# Faixas: 6
Estilos: Rap
Duração: 15'
Produção: VHOOR

“Mano, eu sou DV e sempre vou ser” é a afirmação que FBC faz em “Levar a Sério”, segunda faixa do seu mais novo trabalho de estúdio, o EP Outro Rolê (2021). Logo após aparecer para o público nacional acompanhando seus conterrâneos de Belo Horizonte no instinto coletivo DV Tribo, o MC lançou o elogiado S.C.A. (Sexo, Cocaína e Assassinatos) (2018) – seu disco de estreia –, que veio com ostensiva e irreverente campanha de divulgação pela web, capitaneada pelo próprio MC. A sensação agora é de que FBC, como o próprio título do álbum indica, está buscando outro rolê – um mais afastado da internet e que resgata a rispidez característica dos tempos de DV Tribo.

Outro Rolê pode ser encarado como prelúdio de União da Força e da Fé, álbum que FBC já vem antecipando nas redes sociais. O conceito, apoiado pela sigla “UFFÉ”, usada muitas vezes como ad-lib, guia o EP e se traduz musicalmente pela impecável produção de VHOOR – permeada por percussões marcantes. A densidade obscura do Drill é responsável por trazer a força, e a fé é transposta a partir da ambivalência dos atabaques, instrumentos tanto de cantigas de candomblé e umbanda quanto de Funk (em especial Atabacada e Tambor 1990, os quais, basicamente, aceleram o ritmo das religiões afro-brasileiras)

O UK Drill combina com a voz áspera de FBC – que soa confortável. Em “Baile de Ladrão”, a melhor música do projeto, VHOOR sampleia “Chumbo Quente”, country de Léo Canhoto e Robertinho que ganhou uma montagem do Funk que se tornou clássico dos anos 2000. Versos como “Mãe no céu vai me perdoar se eu fizer outra mãe chorar / Meu filho tá aí, se eu morrer ninguém vai cuidar” e “Se a lei não alivia nois, a solução é virar playboy” dão uma dimensão mais profunda a respeito do ladrão dono do baile. Em “Levar a Sério”, com o mesmo sample de “Tropa das Sem Limite”, FBC está quase em tom confessional e esmiúça memórias para narrar momentos de “quase”, que, por pouco, não mudariam seu destino, afastando-o para sempre da música. “Se eu fosse levar a sério / Tinha uma lápide / Sem meu nome de nascimento / Indigente vai assim mesmo / O esquecimento”. A repetição do título da canção durante os versos foi uma maneira bem sagaz de demonstrar que não foram poucas as vezes em que as coisas poderiam ter dado errado para FBC. “Dia de Luxúria” e “Gameleira” são músicas nas quais o UK Drill sai de cena em favor do atabaque desacelerado, em um salto um tanto brusco da agressividade para canções que falam sobre relacionamentos e ancestralidade.

O fechamento do projeto é bem acertado com “Sincero Foda-se”, em que FBC promove um equilíbrio entre a vontade de colocar em prática “a sutil arte” e as responsabilidades que o impedem de chegar a este ponto. “Se a de fé não for é foda / Seus menor vão tá na merda / Pronto a repetir o que você fez de um jeito pior / Da mesma forma, só que bem pior / Pra polícia matar, e ela não tem dó / O foda é pensar nisso quando quer ligar o foda-se”. É justamente nesse equilíbrio – ainda que seja um subtexto na música – que FBC parece capaz de revisitar sua caminhada, realçar suas qualidades e buscar novos caminhos que resultem em um futuro grande disco.

(Outro Rolê em uma faixa: “Baile de Ladrão”)

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ARTISTA: FBC, VHOOR