Resenhas

Feist – Pleasure

Cantora e compositora canadense retorna com álbum pessoal e intenso

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Ano: 2017
Selo: Universal
# Faixas: 11
Estilos: Folk Alternativo, Rock Alternativo
Duração: 53:28
Nota: 4.0
Produção: Feist, Mocky Renaud Le Tang

Em um mundo alternativo e muito improvável, eu faria esforço para ser “amigo” de Leslie Feist. Inteligente, bonita, articulada, dona de uma voz enorme, multitalentosa, ela é o que as redes sociais têm chamado de “mulherão da p….”, algo com o que eu concordo bastante. Seu novíssimo álbum, Pleasure, o primeiro que ela lança desde Metals, que veio em 2011, é, ao mesmo tempo, uma tarefa árdua e prazerosa, sem trocadilhos. Um primeiro grupo de ouvintes, razoavelmente numeroso, adorará se aventurar entre as canções esparsas e simbólicas do álbum. Me refiro aos fãs da cantora canadense, saudosos, fanáticos, ansiosos por ouvi-la. Para eles, Feist concede o privilégio de conhecê-la melhor, uma vez que este novo trabalho parece ser mais uma sessão de terapia de grupo que qualquer outra coisa. Ela é generosa, abre seu coração para quem desejar ouvir e entender. O problema é que o outro grupo, muito mais numeroso, certamente vai achar difícil ouvir Pleasure em sua totalidade. São as pessoas que não são fãs ou conhecem o trabalho de Feist.

Neste novo álbum, Feist optou por um instrumental calcado em guitarras e violões, tendo sua voz como destaque maior. Seu registro oscila entre o desespero, a raiva e a compaixão, oferecendo ao ouvinte a possibilidade de perceber seus detalhes, talvez olhar através do que ouve. Tal fato é a chave para entender Pleasure: Feist, desde os 15 anos produzindo música, disse em entrevista ao site Pitchfork, que precisou mudar sua relação com sua obra, a ponto de precisar certificar-se de lançar um álbum apenas quando isso fosse necessário. O processo criativo e o resultado do anterior, Metals, já parecia apontar para esta direção e agora isso ficou evidente. E a onda que Feist vem surfando é a de enxergar a música – a sua música – como uma forma de estabelecer uma relação mais íntima com o ouvinte, que vai além da dança ou do canto em uníssono. Ela deseja que tal conexão seja sincera e maior.

Claro, esta leitura não desabona em nada o disco, apenas o faz ser mais indicado para iniciados ou dispostos. Há belas canções, envoltas em ótimos arranjos ao longo do álbum, todas intensas, fortes, talvez intencionalmente difíceis. Century, uma ótima colaboração com Jarvis Cocker destoa alegremente do conjunto de faixas, configurando uma boa exceção. Povoada com os instrumentos que vão além do espectro voz-cordas-clima, a canção recupera a versatilidade Pop que Feist tem – e da qual abre mão em Pleasure – numa faixa urbana, quase dançante. As outras dez composições, para usar um termo caro aos neoliberais, investem no formato mais intimista, atingindo momentos de beleza inegáveis. Elas variam em intensidade, mas juntas compõem um painel pungente e bastante forte.

O maior destaque é, sem dúvida, Any Party, que parece uma canção de Bob Dylan, repensada e apropriada, sem que sobre quase nada que não seja totalmente pessoal e reverente. Outro sintomático momento é A Man Is Not His Song, com vocais que poderiam ter sido gravados num bar além da meia-noite, mas que, além de carregar dor, oferecem alguns lampejos de esperança. O arranjo é um Blues convencional, que enfatiza o registro da cantora. The Wind é outra belezura, com refrão que possibilita mudança no clima da canção, com Feist alçando vôo e liberando sua carga emocional, enquanto o arranjo oscila os instrumentos acústicos com uma discretíssima pitada eletrônica, temperando, oferecendo, propondo. I’m Not Running Away é outro bom momento, com bom trabalho de guitarras e clima soturno.

Pleasure é um álbum “difícil”, mas oferece recompensa farta para quem se aventurar por seus caminhos. Sua sinceridade pode compensar o ouvinte com belos momentos, mas, alguns deles – eu incluído – podem sentir falta da ótima faceta Pop de Feist. Esperamos que ela se volte para este lado em algum momento do futuro próximo. Até lá, não é nenhum esforço ouvir o que ela tem a dizer. Pelo contrário.

(Pleasure em uma música: Any Party)

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BOM PARA QUEM OUVE: Joni Mitchell, Björk, PJ Harvey
ARTISTA: Feist

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.