Resenhas

Fernando Motta – Andando Sem Olhar Pra Frente

Disco de compositor é intenso, belo e bem construído

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Ano: 2016
Selo: Independente
# Faixas: 10
Estilos: Emo Revival, Folk Rock, Sadcore
Nota: 4.0
Produção: João Carvalho

Se a Europa abrigou uma juventude melancólica com os existencialistas e os Estados Unidos com a geração Beatnik, o Brasil teve a sorte de ter como lideres da expressão lúgubre e depressiva os roqueiros tristes. Entre acordes densos e letras que transmitem um sofrer ímpar, esses músicos produzem obras primas em seus quartos, apostando em suas respectivas sinceridades como arma principal de seus trabalhos. Nomes como Jonathan Tadeu e El Toro Fuerte foram os primeiros a nos impressionar e, aos poucos, novos nomes começam a surgir e nos revelar seus universos pesados e particulares. Agora é a hora e vez de Fernando Motta.

Mineiro e integrante dos folkeiros da banda Young Lights, Fernando mostra em Andando Sem Olhar Pra Frente que é mais do que um jovem triste com uma guitarra e uma mente cheia de dúvidas. É um ser ansioso para expor aquilo que o aflinge, fazendo isso da maneira mais sensorial possível. Com uma nítida predileção por criar texturas bastante reverberadas e mostrar uma forma despretensiosa de cantar, o compositor narra seu universo de uma forma frágil, mas, ironicamente, o que ele cria aqui é algo completamento oposto a isto.

Suas narrativas são bem construídas, seja mostrando um instrumental plurisentimental ou letras afiadas que cortam nossos corações ao primeiros sinais de fragilidade em sua performance. Fernando nos confirma em poucos segundos de reprodução deste disco que ele sabe plenamente como conduzir sua história, mesmo que neste processo haja tanta dúvida, ressentimento e dor.

O título do disco revela uma importante construção de seu trabalho: o passado enquanto matéria prima de sua obra. O fato de não olhar para frente e títulos de composições com referências a um passado da década de 1990 (Videokê e Macaulay Culkin) evidenciam o quão terno Fernando é com o seu passado, como seu fosse uma pérola que ele quer apreciar ao invés de olhar para onde o futuro aponta.

É meio que um consenso entre os roqueiros tristes brasileiros esse tipo de apreço pelo passado, mas a relação de Fernando com o seu o destaca dentre os demais. Suas vivências transformam-se em epifanias expostas magistralmente neste belíssimo disco.

Fernando traz um promissor trabalho a tona e embora ele prefira andar sem olhar para frente, o futuro poderá trazer novos e interessantes rumos para sua obra. Um diário no sentido mais pessoal e íntimo da palavra.

(Andando Sem Olhar Pra Frente em uma faixa: Serenata)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.