Resenhas

Fernando Motta – Ensaio Pra Destruir

Terceiro disco do compositor mineiro traz uma experiência sensível e devastadora a respeito de um contexto novo e angustiante

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Ano: 2021
Selo: Geração Perdida
# Faixas: 11
Estilos: Shoegaze, Emo
Duração: 32'
Produção: Vitor Brauer

Há cinco anos o músico mineiro Fernando Motta colocou no mundo seu primeiro disco, Andando Sem Olhar Pra Frente (2016), e, desde então, percorreu o Brasil o fazendo amigo amigos. Junto a integrantes da Geração Perdida de Minas Gerais, Fernando viajou por vários estados brasileiros em uma série de shows que juntavam diferentes artistas representantes de um Rock envolto de certa melancolia. Ou simplesmente Rock Triste: hoje um gênero mais tímido, porém sempre vivo. Apesar de um artista repleto de introspecção e, ao mesmo tempo, de muito sentimentos à flor da pele, estas grandes viagens certamente foram decisivas para a construção de sua poética.

Afinal, ouvir um disco de Fernando Motta é como estar envolvido em uma conversa muito sincera. Como se você estivesse tomando uma cerveja com ele em um festival de bandas alternativas, compartilhando vivências e histórias. A partir de seu segundo disco, Desde Que O Mundo É Cego (2017), esta dinâmica de amizade sincera ficou ainda mais evidente, não apenas pelas letras e arranjos mais desenvolvidos e envolventes, mas pela quantidade de projetos dos quais Fernando fazia e faz parte, sempre acompanhado de grandes amigos – como o destruidor EP, Lapso (2019), colaboração conjunta com a banda paulista eliminadorzinho.

Entretanto, também faz cinco anos que o mundo era completamente diferente. Hoje, por conta da pandemia, Fernando não pode mais circular livremente pelo país, nem encontrar seus amigos de Belo Horizonte, menos ainda de outros estados. Dessa forma, essas mudanças radicais não transformam o modo como Fernando encara tanto si mesmo e sua arte, quanto o mundo. A impressão que fica é que esta nova realidade à qual o compositor teve que se adequar foi tão arrebatadora, que foi necessário um novo registro para conter a avalanche de sentimentos e emoções consequentes. É certo que Fernando já lidava com muitas coisas em seus discos passados. Mas parece que o seu terceiro disco, Ensaio Pra Destruir lida como uma carga tão intensa que isso rompe com todas as certezas de antes. Isso fica claro quando, no meio do disco, ouvimos a frase: “Belo Horizonte não existe”: as coisas não são mais como antes.

Aquela sonoridade clássica e estridente ainda está presente entre as 11 faixas do registro. Porém, parece que o toque de Vitor Brauer (Lupe de Lupe) como produtor foi uma fagulhas decisiva para dar a este disco uma sensação de explosão constante. Baterias pesadas se somam a graves baixos para nos dar socos no peito. Além disso, aqueles riffs indiscutivelmente Emo são amplificados por efeitos Shoegaze que colocam estas músicas em um meio termo entre My Bloody Valentine e Mineral. Tudo iss, envolvendo a poesia de Fernando, que agora ronda um estado de preparação para o inevitável. É difícil pensar como a pandemia não influencia estas letras, colocando o compositor em contato direto com uma incerteza latente. Parece que Fernando não se prepara para a morte ou para o caos, mas sim para um grande nada sem forma. É aí que reside o grande movimento do disco: de nos envolver nessa transformação, mas sem nos avisar o que vem por aí. Neste disco, estamos constantemente ansiosos pelo futuro e, tal como Fernando, sabemos apenas o que sentimos no momento. Por isso Ensaio Pra Destruir é tão intenso.

A primeira faixa, “Insetos Rondam A Luz Acesa”, deixa isso claro na forma como vai criando tensão no ouvinte conforme as linhas de guitarra vão progredindo em ressonância às vozes noturnas de Fernando. “Tridimensional” é mais Pop, quase Dream Pop, aproveitando os espaços entre os reverbs para esparramar e transbordar todo o sentimento. “Paranormal” pode ser um choque para aqueles que esperavam um Emo mais tradicional, pois explode um Shoegaze barulhento e distorcido em nossos ouvidos, canção que deixaria Kevin Shields orgulhoso. “Perfeição” é quase um respiro daquele caos prévio, porém não nos deixa descansar totalmente pela ambientação fantasmagórica que é feita com sintetizadores e sonoplastias. Por fim, “Oslo, 31” termina o registro nos impulsionando sempre em direção da resolução que não chega – e nos surpreende por finalizar o disco com um tom esperançoso, redentor.

Ouvir um disco de Fernando Motta pode ser uma conversa, mas é uma daquelas conversas que não sabíamos que precisávamos. E em tempos tão difíceis quanto estes, ter uma conversa dessas, que investiga angústia e nos coloca no centro do furacão, é exatamente o que nos impulsiona. Podemos não encontrar Fernando pelos shows que costumávamos frequentar, mas certamente sentimos seu afeto próximo de nós. Um afeto catártico.

(Ensaio Pra Destruir em uma faixa: “Tridimensional”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.