Resenhas

FFS – FFS

Colaboração entre Sparks e Franz Ferdinand é ponto fora da curva

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Ano: 2015
Selo: Domino
# Faixas: 12
Estilos: Rock Alternativo, British Rock, New Wave
Duração: 47:09
Nota: 4.0
Produção: John Congleton

Há uma porção de méritos nessa estranha peça de música Pop contemporânea inglesa. Em primeiro lugar, trata-se uma colaboração entre duas bandas – Franz Ferdinand e Sparks – separadas por um oceano, três décadas e uma série de outros detalhes menos óbvios, como o fato dos escoceses serem uma formação dona de sucesso mundial e os americanos não ultrapassarem as fronteiras de um bem informado e reduzido séquito de fãs, entre eles, os próprios integrantes de Franz Ferdinand. Nascido de admiração mútua, gestação prolongada e paciente, FFS, a banda, é um, por assim dizer, ponto fora da curva em termos de colaboração e o disco homônimo, como dissemos, tem charme de sobra para existir longe dos debates sobre a genética favorecer um ou outro pai. Tudo funciona.

As vozes de Alex Kapranos e os irmãos Ron e Russell Mael se alternam e se misturam ao longo das doze faixas. Tem a matriz dançante/New Wave anos 00 de Franz Ferdinand e a esquisitice teatral de Sparks. De alguma forma misteriosa e genial, as mãos e ouvidos do produtor John Congleton foram hábeis o bastante para mediar suas diferenças e torná-las praticamente complementares. É retrô e moderno sem ser bundão ou nostálgico, ideia e conceito que fazemos em pequenas nuances ao longo do álbum. Há uma reconexão do Rock alternativo inglês dos anos 1980, um dos elementos que formam o escopo sonoro de Franz Ferdinand, com as formas mais puras de Glam Rock, estilo que Sparks ajudou a forjar e levar adiante. Enquanto David Bowie, Roxy Music e quejandos assumiam postos de representantes máximos do estilo, os americanos assumiam a controversa condição de cult band.

Os bons momentos do disco são variados e não se fazem de rogados na arte de encantar. A narrativa classe média de Little Guy From The Suburbs mistura impressões cínicas sobre luta de classe e existência à sombra da fama enquanto se espera a passagem do dia. Call Girl tem brejeirice dançante contemporânea, mas soa como se um jovem Bryan Ferry fosse arremessado no início dos anos 1970 para 2015 e colocado diante de um microfone. Tem charme, tem cinismo e revestimento de veludo. Police Encounters é quase uma faixa de Pulp, cheia de cafonice deliberada, vocalizações extravagantes e dancinha constrangedora intencional, tudo com genialidade e bom humor enquanto reflete sobre temas sérios. Save Me From Myself também vai nessa onda deliberadamente cafona, com pianos épicos e vocais decadentes, com instrumental retrô-kitsch de primeira linha. So Desu Ne é o sonho de consumo das bandas atuais, com uma sonoridade plástica que parece produzida no Casiotone mais próximo, porém, com intenção total de soar datada e rascunhada.

Mais crônica de costumes vem na aerodinâmica Man Without A Tan, enquanto Things I Don’t Get é um claro/escuro de vozes desesperadas e sussurrantes, entrecortando bateria marcial e teclado esparso. Mais teatro surge em The Power Couple e a sensacional Collaborations Don’t Work anunciam o fim do disco, sendo que a última é adoravelmente falsa, cheia de efeitos grandiloquentes e orquestrais, lembrando um pouco as vocalizações feitas em discos setentistas de Queen. Fechando FFS, o álbum, a primeira canção que as bandas fizeram juntas, Piss Off, decidida e exagerada, conectadas totalmente ao contexto.

FFS, disco e banda, são anomalias neste mercado musical tão engessado de hoje. É quase um milagre em termos de realização, tem ganchos Pop de sobra e estranheza por todos os seus obscuros cantos. Vale a diversão para fãs do bom e tradicional Rock britânico, cínico, cruel, bem humorado e extremamente ácido. Como convém.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.