Resenhas

Fiona Apple – The Idler Wheel…

Primeiro lançamento da cantora em sete anos traz o que os fãs mais queriam ver: a artista em sua melhor forma, com muita melancolia e riqueza sonora

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Ano: 2012
Selo: Epic
# Faixas: 10
Estilos: Indie, Rock Alternativo, Indie Folk
Duração: 42:05
Nota: 4.0
Produção: Charley "Seedy" Drayton

Hoje em dia, ficar sete anos sem lançar material novo é muito, vista a quantidade de discos que os artistas e bandas tendem a produzir em uma indústria com uma demanda tão grande para o consumo quanto a música. Enquanto alguns voltam do hiato e decepcionam os fãs, outros criam suas obras primas, além daqueles que simplesmente fazem seu retorno na medida ideal para completar sua discografia, sem grandes estardalhaços, ao criar uma obra que atenda às expectativas de seu público fiel ao mostrar aquilo que os ouvintes mais querem: o próprio artista.

Fiona Apple se encaixa nessa última categoria. Seu quarto álbum, The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, o primeiro desde 2005, se revela como uma obra que traz as diversas características da cantora que conquistou tantos fãs desde sua estreia com Tidal (1996). Desde então, as composições sinceras acompanhadas por uma interpretação emocionada viraram as principais características do trabalho da moça.

E são justamente esses elementos que constróem o novo disco e o fazem ser tão bom. Fiona está sempre em primeiro plano, brilhando em rimas e sussurros cantados bem próximos ao microfone, o que cria ainda maior intimidade entre a cantora e seus ouvintes. Ela abre o coração ao pé dos nossos ouvidos. O produtor Charley “Seedy” Drayton entra como o mediador que facilita essa valorização do seu vocal, abafando a maior parte dos instrumentos como se eles fossem uma base na qual se constrói a interpretação da cantora.

Sua dramaticidade sabe ser equalizada e nunca aparece como um maneirismo, mas convence em sua organicidade. É assim na progressão do single Every Single Night, que serve como abertura para o álbum, na tensão harmônica de Daredevil e nos gritos roucos de Regret, que serve como clímax da obra na sequência com Anything We Want, que traz uma melodia Pop que parece ter sido feita para se cantar em coro, mas que ela dá conta do recado em apenas uma voz.

E, talvez, esse seja um aspecto interessante para se entender a fase da carreira da artista. Aos 34 anos, Fiona parece mostrar não precisar de ninguém. Ela brinca sozinha em suas entonações, acompanhada de poucos timbres, principalmente piano e percussão, mas se vira para preencher o espaço sonoro como pode. A maturidade vem também em saber dosar os elementos constrastantes entre faixas, como a interessantíssima Left Alone (talvez, a melhor do disco) e sua levada complexa e jazzística ser seguida da linda balada Werewolf. São duas faces da mesma cantora que, por mais diferentes que se pareçam quando colocadas lado a lado, soam coesas dentro de sua discografia.

Sobre isso, as faixas se diferem o suficiente umas das outras sem perder alguma linha em comum, principalmente na melancolia de sempre. Há um certo aspecto meio tribal/cerimonial em canções como Hot Knife que consegue ficar bem ao lado do clima do piano meio cabaret de Jonathan e Periphery. Ambos os estilos conferem uma dinâmica interessante às confissões e desabafos da moça.

The Idler Wheel… parece desempenhar uma função dupla. Além de se firmar como mais um lançamento sólido na discografia de Fiona Apple, o álbum cumpre seu papel de matar as saudades dos fãs da artista. É bom que ele consiga fazer as duas coisas ao mesmo tempo e isso só é possível por saber trabalhar aquilo que a cantora faz de melhor, que é também aquilo que seu público mais admira. O tempo vai contar como o disco será comparado aos outros três títulos que ela já lançou, assim como saberemos se ele será lembrado como um dos destaques de 2012 ou não. Independentemente desses dois fatores, os fãs seguem satisfeitos pelas novidades da moça serem de qualidade tão alta quanto essas dez faixas – e isso deve bastar por mais alguns anos.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.