Resenhas

Fiona Apple – Tidal

No meio dos anos 1990, inaugura-se o mistério chamado Fiona Apple

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Ano: 1996
Selo: The WORK Group (Sony Music) / Clean State
# Faixas: 10
Estilos: Pop, Rock Alternativo, Indie
Duração: 51'
Produção: Andrew Slater

O primeiro álbum de estúdio de Fiona Apple foi lançado no ano em que a artista completou 19 anos e contém canções que foram escritas quando ela tinha 17 anos. Pegue todas as conclusões que você tirou sobre Tidal (1996) a partir dessa informação e prepare-se para refazê-las. Ela provou, de cara, antes de completar 20 anos de idade, que seu caminho seria intenso. Com um piano clássico e muitas vezes sutil, a voz de Fiona e suas letras são definitivamente os elementos que se destacam em seu primeiro trabalho. Sua voz é poderosa, forte, ainda quando parece vir sem esforço – como em “Carrion” ou nos sussurros de “Slow Like Honey”.

A lírica de Fiona é densa. A artista traz em poesia a visão de uma adolescente sobre o mundo e si mesma sem romantizar esse universo. São sentimentos que flutuam: paixões, ressentimento, angústia e transformação. Para além de relações românticas, ela expressa traumas e a possibilidade de superá-los. É na combinação de sentimentos e situações – em constate mudança – que as metáforas de Fiona encontram espaço, revelando uma composição assertiva, original, sagaz e sensível, que dá sinais da grande artista que se consolidaria nos anos e discos seguintes.

Enquanto algumas faixas têm estruturas que lembram uma progressão clássica de um Pop mais entusiasmado, outras carregam uma melancolia dormente e escapam da linguagem comercial – e continuam arrebatadoras. “Suellen Girl”, uma das melhores do disco, aborda o tormento da depressão e, com metáforas marítimas poderosas e comoventes, faz referência – tal qual a cantora confirmou mais tarde em entrevista à Rolling Stone – ao estupro sofrido por Fiona aos 12 anos de idade. (“É por isso que me chamam de garota emburrada, garota emburrada? / Eles não sabem como eu costumava velejar no profundo e tranquilo mar / Mas ele me levou ao litoral e levou minha pérola / E deixou uma concha vazia de mim”).

Outras canções, como “The Child Is Gone”, também revelam a capacidade de Fiona em traduzir desespero com poesias potentes, escancarando sua angústia com uma carga alegórica rara na música Pop. (“Querido, me dê sua ausência esta noite / Pegue os tons do quadro e me deixe o branco / Deixe-me afundar no silêncio que ecoa dentro / E não se importe em deixar a luz acesa”).

O início do álbum concentra suas três canções mais populares do período: “Sleep to Dream”, “Shadowboxer” e “Criminal”. A última rendeu um Grammy de Melhor Cantora de Rock e o clipe dirigido por Mark Romanek ficou muito popular. Em 1997, Fiona ganhou um MTV Video Music Awards de Artista Revelação; ela realmente não esperava ganhar o prêmio, o que rendeu o icônico discurso “This world is bullshit”. A espontaneidade lúcida – ou a lucidez espontânea – desse discurso é peça central para entender a Fiona de Tidal como ela é. (Já) sem concessões e firme em suas convicções. Mas ela também acabou sendo duramente criticada pela fala, por conta de uma suposta hipocrisia, já que estrela o clipe de “Criminal” de maneira um tanto sexualizada. De qualquer forma, uma coisa ficou evidente naquele VMA de 1997: Fiona Apple não era comum.

(“Ah, cara…eu não preparei um discurso e eu estou feliz que não tenha preparado porque eu não vou fazer isso como todo mundo faz. A todo mundo que eu deveria estar agradecendo: eu sinto muito. Maya Angelou disse que nós, como seres humanos, no máximo só conseguimos criar oportunidades; eu vou usar essa oportunidade do jeito que eu quero usar. O que eu quero dizer é…a todo mundo que está assistindo: esse mundo é uma farsa. Você não deve moldar a sua vida pelo que a gente acha que é descolado, o que a gente está vestindo e o que a gente está falando. Confie em você mesmo.”, VMA, 1997 )

Tidal (1996) chegou a ficar no segundo lugar do Billboard Top Heatseekers, gráfico criado em 1991 para apresentar a popularidade de novos artistas. Em pouco tempo, ela já era um nome em posições ambiciosas em gráficos (e imaginários) do mundo todo. E mais: um curioso e instigante mistério para quem foi cativado por seu disco de estreia.

(TIDAL em uma faixa: “Sullen Girl”)

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ARTISTA: Fiona Apple