Resenhas

FKA twigs – Caprisongs

Inserido, sem pudor ou receio, em uma dinâmica do mainstream, novo trabalho da camaleônica artista britânica abre a trilha para um novo curso em sua carreira

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Ano: 2022
Selo: Young/Atlantic
# Faixas: 17
Estilos: Art Pop,
Duração: 48'
Produção: FKA twigs, El Guincho, Arca, Koreless, outros

Inspirada por experimentadores camaleônicos do pop como David Bowie e Bjork, uma geração de artistas que cresceu entre os fins da MTV e o apogeu da internet se armou de tecnologias digitais para remodelar o semblante da música pop por dentro, a partir de sua própria gramática. Inseridos no mainstream ou habitando as cercanias deste sistema, produtoras como Arca e Sophie e cantoras como Charli XCX e Grimes construíram uma vereda musical (frequentemente descrita como “art pop” ou “descontruída”, entre outros adjetivos utilizados pelos críticos) que foi sendo expandida até cruzar o caminho dos grandes astros. Lady Gaga não só nomeou um de seus mais controversos álbuns como Artpop (2013) como trabalhou diretamente com alguns desses novos expoentes — ao lado de Sophie, por exemplo, a cantora armou uma estrutura de seis microfones para gravar o som do cano de escape da sua Lamborghini.

Caprisongs, o terceiro álbum da britânica FKA twigs, é um jogo de cena que traduz esses encontros, sínteses e readaptações entre os jovens investigadores da linguagem musical e suas pretensões disruptivas e os popstars, assim como as suas consequências — sobretudo o nó górdio entre exposição e privacidade na vida de uma neo-diva. É um disco marcado por refrãos (como ela nunca havia escrito) e canções mais polidas, desenhadas para um grande público, mas que ao mesmo tempo desponta vetores no sentido inverso à grandiosidade da fantasia pop, caminhando rumo aos afetos mais cotidianos de uma pessoa anônima. “Amigos no parque, sua pessoa favorita, aquela frase que alguém te contou e que mudou tudo, seu melhor amigo que está sempre atrasado, mas que traz o melhor para festa”, disse a artista ao listar algumas das sensações que permeiam o álbum.

twigs ficou conhecida por trabalhos conceituais e virtuosísticos como o pop barroco e o R&B distorcido de magdalene (2019), que retoma a história de Maria Madalena como pano de fundo para uma meditação contemporânea sobre liberdade, amor, autonomia, feminismo e hegemonia masculina. Mas Caprisongs transcorre numa dinâmica mais pessoal e privativa. Anunciado como uma mixtape, o álbum abre com “click” de uma fita cassete, efeito sonoro que é retomado ao longo de toda a escuta e que tece o trabalho como um delicado presente ao ouvinte, como se as músicas fossem uma partilha dos seus sentimentos mais profundos, contados de forma quase confessional.

É curioso que The Weeknd — que faz feat com FKA em “Tears in The Club” e também surgiu ele próprio como um artista “alternativo” com um esquizo R&B em 2011 e agora é estrela no show do intervalo do Super Bowl — faça o caminho oposto em seu novo álbum, Dawn FM. Enquanto o canandense simula uma estação de rádio (com vinhetas, locuções e tudo) que fala para uma multidão de pessoas, twigs monta uma coleção de músicas e referências aos signos para traduzir e dividir os sentimentos que nem ela mesma conseguiria explicar — de alguma forma, twigs canta como se soubesse exatamente o rosto do seu ouvinte, como um amigo próximo, em vez de uma multidão amorfa. Parece ser um detalhe, mas a escolha da rádio fm, de um lado, e da mixtape em fita cassete do outro, indica o tom de voz e as intenções de cada um e as suas perspectivas sobre celebritização. Sobretudo, mostra como FKA — que sofreu com a superexposição midiática ao namorar atores de Hollywood — parece querer se viver em um outro estatuto de fama, uma anti-diva talvez. De todo modo, uma busca que toma forma também musicalmente.

O clipe de “ride the dragon”, faixa de abertura de Caprisongs, dá corpo a essa posição ambígua: há a magia extraordinária da dança e da coreografia realizada em grupo com perfeição, mas há também a vida cotidiana não tão glamurosa assim dos bastidores — a vemos nos seguranças expulsando twigs e suas amigas do parque; nas caras e bocas para câmeras de segurança de um mercadinho. Essa conexão íntima e pessoal aflora também nos desabafos e nas inseguranças de faixas como “lightbeamers” (“bonita e triste/ você já se sentiu assim?”) e “meta angel” (“eu quero ser mais confiante”, diz ela, em uma conversa com amigos).

Ainda assim, Caprisongs é, sem nenhum pudor ou receio, um disco inserido numa dinâmica do mainstream e que abre a trilha para um novo curso na carreira de sua autora. Primeiro, pela sua própria estrutura de produção— são mais de 22 produtores musicais envolvidos no projeto (Arca é um desses nomes) e sete feats, incluindo Jorja Smith, Daniel Caesar, Shygirl e o superstar The Weeknd. Mas também pela musicalidade, pelo tipo de refrão que visa a catarse coletiva, pelas canções que lidam com o movimento, o impulso e a festa. É dançar até a dor do coração partido “sair pelo quadril, pelas coxas, pelos meus erros e acertos”, como diz a letra do single “tears in the club”. “Oh my love” é uma faixa diferente de tudo que FKA twigs produziu, feita estrategicamente para ser cantada em coro, com o refrão: “Everybody knows that I want your love/Why you playin’, baby boy/What’s up?”.

O modo como FKA twigs lida com essas duas facetas mostra como o binarismo entre pop author versus pop star não existe para ela. O que é, a princípio, uma visão interessante e original, por outro lado não se concretiza enquanto projeto artístico de fato em Caprisongs, que soa como um disco de transição para algo que ainda está por vir — talvez sua guinada pop por completo ou uma alquimia perfeita entre linhagens musicais. Por ora, o resultado é um impasse, uma indecisão, um meio-do-caminho sem o brilho da sua inventividade anterior e sem a energia e o vigor das grandes canções pop.

(Caprisongs em uma faixa: “tears in the club”)

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ARTISTA: FKA Twigs