Resenhas

FKA twigs – Magdalene

Um amor imensurável conduz a narrativa profundamente humana da artista neste disco espetacular que traça conexões invisíveis entre timbres opostos

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Ano: 2019
Selo: Young Turks
# Faixas: 9
Estilos: Art Pop, Eletrônico, Experimental
Duração: 38'
Produção: FKA twigs, Jack Antonoff, Nicolas Jaar, Kenny Beats, Daniel Lopatin, Skrillex e outros

Basta uma breve incursão pelo mundo de FKA twigs para notar que sua música é interdisciplinar. Sua própria figura é enigmática: um pouco alienígena, exibindo figurinos extravagantes e movimentos atléticos e dando a entender que, para a artista, o som é apenas uma consequência da imagem de seu corpo. Nesse sentido, mais do que um amontoado de referências da moda, do cinema, e assim sucessivamente, as conexões estéticas que a artista cria, invisíveis, evocam uma espécie de noção espiritual da arte.

Magdalene, o segundo álbum da artista inglesa, traz ao título a figura bíblica de Maria Madalena, personagem que participa de alguns dos principais eventos da narrativa cristã. Sempre próxima de Jesus, seu papel varia de acordo com a escola de pensamento, sendo interpretada, por exemplo, como prostituta ou como par romântico de Cristo. No entanto, não é preciso se aprofundar em distensões teológicas para saber qual é a Madalena que interessa a FKA twigs: aquela que possui um amor transcendental, devota à sua paixão, soando até mesmo pecaminosa para alguns. E, é claro, ocupando sempre um papel coadjuvante em relação ao seu amor. Diz twigs: “Eu costumava rir sozinha sobre como, enquanto mulher, sua história é frequentemente atrelada à narrativa de um homem”; e completa: “não importa o que você faça ou quão formidável seja o seu trabalho, algumas vezes parece que sempre precisa estar relacionado a um homem para ser validado”.

A trajetória pessoal da artista imprime sua marca em Magdalene. Ela parece apreender em seu corpo novas práticas que a levem ao auto conhecimento. Recentemente, com a ideia do videoclipe de “Cellophane” em mente, decidiu dedicar-se à aprendizagem do pole dance, se tornando proficiente na técnica no período de mais ou menos um ano. FKA twigs, é claro, já era dançarina – motivo pelo qual, aliás, foi convidada a protagonizar  um comercial da Apple dirigido por Spike Jonze em 2018. No entanto, durante o processo de gravação, os pontos de uma cirurgia ‒ resultado de uma recente remoção tumoral do útero ‒ se abriram. A artista declarou: “eu estava me dedicando ao máximo e literalmente senti que meu útero ia cair para fora”.

A produção, feita por nomes como Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), Nicolas Jaar e Skrillex, entre outros, a coloca na linha de frente da música eletrônica contemporânea, de descendência experimental. No entanto, diferentemente de suas referências, a música de FKA twigs não é apocalíptica: provoca antes uma espécie de intimidade e lascívia. A sonoridade de Magdalene parece ser projetada de um mundo alternativo, como se a ouvíssemos debaixo d’água, ou por detrás de um papel celofane colorido. Nesse sentido, apesar de alternativo, Magdalene soa familiar por sua semelhança com trabalhos de artistas como Grimes, Solange, Björk ou Frank Ocean ‒ nomes, não por acaso, cuja a estética visual é intrincada na música que fazem.

Twigs, com seu visual andrógino, soa cósmica, vinda de outro plano. No entanto, Magdalene estabelece conexões invisíveis entre timbres distantes ‒ a voz aguda e suave, a harmonia quebradiça e irregular ‒ para falar de coisas profundamente humanas. A artista costura assim um retrato vulnerável, fragilizado, “desesperado” (nas palavras da mesma) em um dos discos mais bonitos do ano.

(Magdalene em uma música: “Cellophane”)

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.